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domingo, 2 de dezembro de 2012

Que o natal não seja só uma festa exterior!



PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Praça de São Pedro

I Domingo de Advento, 2 de Dezembro de 2012


Queridos irmãos e irmãs!

Hoje a Igreja inicia um novo Ano litúrgico, um caminho que é ulteriormente enriquecido pelo Ano da fé, cinquenta anos após a abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II. O primeiro tempo deste itinerário é o Advento, formado, no Rito Romano, pelas quatro semanas que precedem o Natal do Senhor, ou seja, o mistério da Encarnação. A palavra «advento» significa «presença». No mundo antigo indicava a visita do rei ou do imperador a uma província; na linguagem cristã refere-se à vinda de Deus, à sua presença no mundo; um mistério que envolve totalmente o cosmos e a história, mas que conhece dois momentos culminantes: a primeira e a segunda vinda gloriosa no fim dos tempos. Estes dois momentos, que cronologicamente são distantes — e não nos é dado saber quanto — tocam-se em profundidade, porque com a sua morte e ressurreição Jesus já realizou aquela transformação do homem e do cosmos que é a meta final da criação. Mas antes do final, é necessário que o Evangelho seja proclamado a todas as nações, diz Jesus no Evangelho de Marcos (cf. 13, 10). A vinda do Senhor continua, o mundo deve ser imbuído da sua presença. E esta vinda permanente do Senhor no anúncio do Evangelho exige continuamente a nossa colaboração; e a Igreja, que é como a Noiva, a Esposa prometida ao Cordeiro de Deus crucificado e ressuscitado (cf. Ap 21, 9), em comunhão com o seu Senhor colabora nesta vinda do Senhor, na qual já começa a sua vinda gloriosa.

A isto nos chama hoje a Palavra de Deus, traçando a linha de conduta que se deve seguir para estar prontos para a vinda do Senhor. No Evangelho de Lucas, Jesus diz aos discípulos: «Que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida... Velai, pois, orando continuamente» (Lc 21, 34.36). Portanto, sobriedade e oração. E o apóstolo Paulo acrescenta o convite a «aumentar e abundar em caridade» entre nós e para com todos, para tornar firmes os nossos corações e irrepreensíveis na santidade (cf. 1 Tes 3, 12-13). No meio das perturbações do mundo, ou dos desertos da indiferença e do materialismo, os cristãos acolhem de Deus a salvação e testemunham-na com um modo de viver diverso, como uma cidade situada sobre um monte. «Naqueles dias — anuncia o profeta Jeremias — Jerusalém será tranquilizada, e será chamada Senhor-nossa-justiça» (33, 16). A comunidade dos crentes é sinal do amor de Deus, da sua justiça que já está presente e activa na nossa história mas que ainda não está plenamente realizada, e portanto deve ser sempre esperada, invocada e procurada com paciência e coragem.

A Virgem Maria encarna perfeitamente o espírito do Advento, feito de escuta de Deus, de desejo profundo de fazer a sua vontade, de serviço jubiloso ao próximo. Deixemo-nos guiar por ela, para que o Deus que vem não nos encontre fechados ou distraídos, mas possa, em cada um de nós, expandir um pouco o seu reino de amor, de justiça e de paz.


Fonte:

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

2013 - Ano C: Evangelho de São Lucas

Durante o ano inteiro celebramos a vida de Cristo, desde a sua em Encarnação no seio da Virgem Maria, passando pelo seu Nascimento, Paixão, Morte, Ressurreição, até a sua Ascensão e a vinda do Espírito Santo.

Mas enquanto civilmente se comemoram fatos passados que aconteceram uma vez e não acontecerão mais, (muito embora esses fatos influenciem a nossa vida até os dias de hoje), no Ano Litúrgico, além da comemoração, vivemos na atualidade, no dia-a-dia de nossas vidas, todos os aspectos da salvação operada por Cristo. A celebração dos acontecimentos da Salvação é actualizada, tornada presente na vida actual dos crentes.

O Ano Civil começa em 1º de Janeiro e termina em 31 de Dezembro. Já o Ano Litúrgico começa no 1º Domingo do Advento (cerca de quatro semanas antes do Natal) e termina no sábado anterior a ele. Podemos perceber, também, que o Ano Litúrgico está dividido em “Tempos Litúrgicos”, como veremos a seguir.

A Igreja estabeleceu, para o Rito romano, uma seqüência de leituras bíblicas que se repetem a cada três anos, nos domingos e nas solenidades. As leituras desses dias são divididas em ano A, B e C. No ano A lêem-se as leituras do Evangelho de São Mateus; no ano B, o de São Marcos e no ano C, o de São Lucas. Já o Evangelho de São João é reservado para as ocasiões especiais, principalmente as grandes Festas e Solenidades.


Como é calculado o ano litúrgico

Muito simples apenas somando os algarismos do ano. O ano em que a soma dos algarismos for um número múltiplo de 3 é do ciclo C.

2013 = 2+0+1+3= 6. 6 é múltiplo de 3, então 2013, o ano litúrgico será ano C, e será C até o final de novembro de 2013.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Maria Imaculada!

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Solenidade da Imaculada Conceição de Maria
Quinta-feira 08 de dezembro de 2011


Queridos irmãos e irmãs 

A grande festa de Maria Imaculada convida-nos a cada ano para estarmos aqui, em uma das praças mais bonitas de Roma, para prestar homenagem a ela, a Mãe de Cristo e Mãe nossa. Saúdo com afeto a todos vós aqui presentes e aqueles que estão unidos conosco através da rádio e televisão. E obrigado por sua participação neste evento de oração. 

No topo da coluna em que estamos Maria é representada por uma estátua que lembra, em parte, a passagem em Apocalipse que foi há pouco proclamada: "Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida do sol, e a lua debaixo dos seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça" (12, 1). Qual é o significado da imagem? Representa tanto a Virgem e como a Igreja. 

Primeiro, a "mulher" de Apocalipse é a própria Maria. Aparece "vestida de sol", isto é, Deus vestiu a Virgem Maria, na verdade, é completamente cercada pela luz de Deus e vive em Deus. Este símbolo “Vestido luz” expressa claramente uma condição que diz respeito a todo o ser de Maria: Ela é "cheia de graça," cheia do amor de Deus. E "Deus é luz", diz São João (1 Jo 1, 5). Aqui, então, que a "cheia de graça", a pessoa "Imaculada" toda reflete a luz do "sol" que é Deus. 

Esta mulher tem a lua debaixo dos pés, símbolo da morte e da mortalidade. Maria, na verdade, é plenamente associada com a vitória de Jesus Cristo, Seu Filho, sob o pecado e a morte, está livre da sombra da morte, plenamente viva. Como a morte já não tem qualquer poder sobre Jesus ressuscitado (cf. Rom 6, 9) e por uma singular graça e privilégio de Deus onipotente, Maria também deixou-a para trás, já superou-a. E isso se manifesta nos dois grandes mistérios da existência: no início, tendo sido concebida sem pecado original, que é o mistério que hoje celebramos, e finalmente, depois de ter sido levada de  corpo e alma para o céu, a glória de Deus. Mas toda a sua vida terrena foi uma vitória sobre a morte, porque dedicou-se totalmente ao serviço de Deus, oferecendo-Lhe a si e aos outros. É por isso que Maria é em si um hino à vida: é a criatura que já realizou a palavra de Cristo: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10, 10). 

Na visão do Apocalipse, há um outro detalhe: na cabeça da mulher vestida de sol, há "uma coroa de doze estrelas." Este sinal representa as doze tribos de Israel, o que significa que a Virgem Maria está no centro do Povo de Deus, a comunhão geral dos santos. E assim esta imagem da coroa de doze estrelas nos apresenta a interpretação do segundo maior do sinal celestial da "mulher vestida de sol": além de representar a Virgem, este sinal simboliza a Igreja, a comunidade cristã de todos os tempos. Está grávida, no sentido de que carrega Cristo em seu ventre e deve ser luz para o mundo: esta é a tribulação da Igreja peregrina sobre a terra, no meio das consolações de Deus e as perseguições do mundo, deve levar Jesus aos homens. 

E justamente por isso, porque conduz a Jesus, a Igreja opõe-se por um adversário feroz, representado na visão apocalíptica de "um grande dragão vermelho" (Apocalipse 12, 3). Este dragão tentou em vão devorar Jesus "filho, que é pastor todas as nações" (12, 5) -, em vão, Jesus, através da Sua morte e ressurreição, ascendeu para Deus e sentou em seu trono. Portanto, o dragão, derrotado uma vez por todas no céu, dirigiu seus ataques contra a mulher, a Igreja no deserto do mundo. Mas em todos os tempos a Igreja é sustentada pela luz e pela força de Deus, que alimenta o deserto com o pão da sua Palavra e da Eucaristia. E assim, em alguma tribulação, através de todas as evidências encontradas ao longo dos tempos e em diferentes partes do mundo, a Igreja sofre perseguições, mas está ganhando. E precisamente desta forma a comunidade cristã é a presença, a certeza do amor de Deus contra todas as ideologias de ódio e de egoísmo. 

A armadilha que a Igreja pode e deve temer é apenas o pecado dos seus membros. De fato, enquanto Maria é Imaculada, está livre de toda mancha do pecado, a Igreja é santa, mas ao mesmo tempo, marcada por nossos pecados. Portanto, o povo de Deus, peregrino no tempo, se dirige a sua Mãe celeste e pede sua ajuda, o pedido para que ela acompanhe o caminho da fé, para incentivar o compromisso da vida cristã e para manter a esperança. Precisamos da sua ajuda, especialmente neste momento muito difícil para a Itália, para a Europa, para várias partes do mundo. Que Maria nos ajude a ver que há uma luz além da camada de neblina que parece envolver a realidade. Portanto, também nós, especialmente nesta ocasião, vamos continuar a pedir-lhe ajuda com confiança filial, "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós."




Ora pro nobis, intercede pro nobis ad Dominum Jesum Christum!

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O mariologista Stefano de Fiores fala à Rádio Vaticano
ROMA, sexta-feira, 9 de dezembro de 2011 (ZENIT.org) - A natureza humana de Maria atinge a perfeição desde a concepção: ela proclama a redenção de Cristo de forma muito mais perfeita do que todos os outros resgatados. São palavras ditas à Rádio Vaticano pelo padre Stefano De Fiores, mariologista, sacerdote de Monfort.

"Maria faz parte da comunidade dos que foram salvos porque ela é Imaculada não pelas próprias forças, mas por um dom que vem de Jesus Cristo, que tem duas maneiras de se tornar e mostrar-se mediador: libertando-nos do pecado cometido ou preservando-nos do pecado com uma força ainda superior, que é a força que impede Maria de cair em pecado".

As aparições de Lourdes não se restringem apenas a confirmar o dogma de Pio IX promulgado em 1854, já que, naquela localidade dos Pirineus, Maria disse "Eu sou a Imaculada Conceição", e não apenas que foi concebida imaculada.


Portanto, continuou De Fiores, a Virgem Maria se identifica com o primeiro instante da sua concepção imaculada, porque durante toda a sua vida ela é fiel àquele momento inicial.

Além de ter sido concebida sem a mancha do pecado original, Maria "sempre viveu de acordo com esse dom inicial, podendo de verdade representar a Imaculada Conceição", acrescentou.


Já em Gênesis, especificamente no chamado Protoevangelho da Salvação, Maria é prefigurada em seu dogma quando Deus amaldiçoa o demônio, que, disfarçado de serpente, corrompe a primeira mulher, Eva: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça e tu lhe atacarás o calcanhar" (Gen 2,15).


Uma profecia, esta, que é entendível justamente com o dogma da Imaculada Conceição, graças ao qual "temos a realização desse anúncio profético do Protoevangelho, com Maria unida a Cristo na vitória sobre o diabo e sobre todos os pecados, inclusive o pecado original", concluiu De Fiores.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Primeira pregação do Advento de 2011 à Casa Pontifícia

P. Raniero Cantalamessa, ofmcap.
"Ide ao mundo inteiro"


Em resposta ao apelo do Sumo Pontífice de um renovado compromisso com a evangelização e em preparação para o Sínodo dos Bispos de 2012 sobre o mesmo assunto, me proponho a identificar, nestas meditações do Advento, quatro ondadas da nova evangelização na história da Igreja, ou seja, quatro momentos nos quais se testemunham uma aceleração ou uma retomada do compromisso missionário. São eles:

1. A expansão do cristianismo nos primeiros três séculos de vida, até a véspera do edito de Constantino, cujos protagonistas, em primeiro lugar, eram os profetas itinerantes e, depois, os bispos;

2. Os séculos VI-IX, em que assistimos à reevangelização da Europa após as invasões bárbaras, especialmente pela obra dos monges;

3. O século XVI com a descoberta e a conversão ao cristianismo dos povos do "novo mundo", especialmente pela obra dos frades;

4. A época atual que vê a Igreja envolvida numa reevangelização do Ocidente secularizado, com a participação determinante dos leigos.

Em cada um desses momentos tentarei destacar o que podemos aprender na Igreja de hoje: quais erros evitar e os exemplos a imitar e quais contribuições específicas que podem dar à evangelização os pastores, os monges, os religiosos de vida ativa e os leigos.

1. A difusão do cristianismo nos primeiros três séculos.

Hoje começamos com uma reflexão sobre a evangelização cristã nos primeiros três séculos. Principalmente um motivo faz deste período um modelo para todos os tempos. É o período no qual o cristianismo encontra o seu caminho exclusivamente por própria força. Não há nenhum "braço secular" que o apoie; as conversões não são determinadas pelas vantagens externas, materiais ou culturais; ser cristão  não é um costume ou uma moda, mas uma escolha contra a corrente, muitas vezes com risco de vida. Em alguns aspectos, a situação se voltou a criar hoje em diferentes partes do mundo.

A fé cristã nasce com uma abertura universal. Jesus tinha dito aos seus apóstolos para irem "ao mundo inteiro " (Mc 16, 15), para "fazerem discípulos a todas as nações" (Mt 28, 19), para serem testemunhas “até os confins da terra” (At 1, 8), para “pregarem a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24, 47).

A aplicação do princípio desta universalidade já acontece na geração apostólica, embora não sem dificuldade e lacerações. No dia de Pentecostes a primeira barreira é superada, a da raça (os três mil convertidos pertenciam a outros povos, mas eram todos crentes do judaísmo); na casa de Cornélio e no assim chamado concílio de Jerusalém, especialmente por impulso de Paulo, a barreira mais difícil de todas foi superada, aquela religiosa que separava os hebreus dos gentios. O evangelho tem, dessa forma, o mundo inteiro diante de si, ainda que por agora esse mundo seja limitado, no conhecimento dos homens, ao Mediterrâneo e às fronteiras do Império Romano.

Mais complexo é seguir a expansão de fato, ou geográfica, do cristianismo nos três primeiros séculos que, porém, é menos necessária para o nosso propósito. O estudo mais abrangente, e até agora insuperável a esse respeito é aquele de Adolph Harnack, "Missão e expansão do cristianismo nos primeiros três séculos"1.
Um aumento acentuado na atividade missionária da Igreja se realiza sob o imperador Commodo (180-192) e, em seguida, na segunda metade do século III, até às vésperas da grande perseguição de Diocleciano (302). Este, além das ocasionais perseguições locais, foi um período de relativa paz que permitiu à Igreja primitiva consolidar-se internamente e desenvolver um novo tipo de atividade missionária.

Vejamos em que consiste esta novidade. Nos dois primeiros séculos a propagação da fé foi confiada à iniciativa pessoal. Tratava-se dos profetas itinerantes, mencionados na Didaqué, que moviam-se de um lugar para outro; muitas conversões deveram-se a contatos pessoais, favorecidos pelos trabalhos comuns exercitados pelas viagens e pelas relações comerciais, pelo serviço militar e por outras circunstâncias da vida. Orígenes nos dá uma descrição comovente do zelo desses primeiros missionários:
"Os cristãos fazem todo o esforço possível para espalhar a fé por toda a terra. Para esse fim, alguns deles se propõem formalmente como tarefa das suas vidas o peregrinar não somente de cidade em cidade, mas também de município em município e de vilarejo em vilarejo para ganhar novos fiéis para o Senhor. Nem se passe pela cabeça, espero, que eles façam isso por lucro, pois até mesmo, muitas vezes se recusam a aceitar o que é necessário à vida"2.
Agora, na segunda metade do século III, estas iniciativas pessoais são cada vez mais coordenadas e em parte substituídas pela comunidade local. O bispo, até mesmo por reação aos efeitos de desintegração da heresia gnóstica, conquista a melhor sobre os mestres, como diretor da vida interna da comunidade e centro propulsor da sua atividade missionária. A comunidade é agora o sujeito evangelizador, a tal ponto que um erudito como Harnack, certamente não suspeito de simpatia pela instituição, possa afirmar: "Devemos ter por certo que a mera existência e a atividade constante das comunidades individuais foi o principal fator na propagação do cristianismo"3.

No final do terceiro século, a fé cristã penetrou praticamente todos os estratos da sociedade, já tem sua própria literatura em lingua grega e uma, embora no início, em lingua latina; possui uma sólida organização interna; começa a construir edifícios sempre mais amplos, sinal do aumento do número de fiéis. A grande perseguição de Diocleciano, além das muitas vítimas, não fez nada mais que destacar o fato de que a força da fé cristã já era irreprimível. A última luta de braço entre o Império e o cristianismo é testemunha disso. 

No fundo, Constantino não vai fazer nada mais do que tomar nota dessa nova relação de forças. Não será ele que vai impor o cristianismo para o povo, mas o povo que vai lhe impor o cristianismo. Afirmações como aquelas de Dan Brown no romance "O Código Da Vinci" e de outros propagadores, segundo os quais  foi Constantino, por razões pessoais, a transformar, com o seu edito de tolerância e com o concílio de Nicéia, uma obscura seita religiosa judaica na religião do império, são baseadas numa total ignorância dos fatos que precederam esses eventos.

2. As razões do sucesso

Um tema que sempre apaixonou os historiadores é aquele das razões do triunfo do cristianismo. Uma mensagem nascida em um canto obscuro e desprezado do Império, entre pessoas simples, sem cultura e sem poder, em menos de três séculos, se estende a todo o mundo então conhecido, subjugando a refinadíssima cultura dos gregos e o poder imperial de Roma!

Entre as diversas razões do sucesso, alguns insistem no amor cristão e no exercício ativo da caridade, até torná-lo "o fator mais importante e poderoso para o sucesso da fé cristã", de tal forma que induziria mais tarde o imperador Juliano o Apóstata, a fornecer o paganismo de semelhantes obras de caridade para combater este sucesso.4
Harnack, por outro lado, dá uma grande importância ao que ele chama de a natureza "sincretista" da fé cristã, ou seja, da capacidade de conciliar em si as tendências opostas e os diversos valores presentes nas religiões e na cultura do tempo. O cristianismo se apresenta ao mesmo tempo, como a religião do Espírito e do poder, que é acompanhada por sinais sobrenaturais, carismas e milagres, e como a religião da razão e do Logos integral, “a verdadeira filosofia”, nos dizeres de Justino Mártir. Os autores cristãos são "os racionalistas do sobrenatural", diz Harnack (5) citando as palavras do apóstolo Paulo sobre a fé como "tratamento racional" (Romanos 12,1).

Desta forma o cristianismo reúne em si, num perfeito equilíbrio, o que o filósofo Nietzsche define o elemento apolíneo e o elemento dionisíaco da religião grega, o Logos e o Pneuma, a ordem e o entusiasmo, a medida e o excesso. É isto que, pelo menos em parte, entendiam os Padres da Igreja com o tema da "sóbria embriaguez do Espírito".
"A religião cristã – escrevia Harnack no final da sua monumental pesquisa – , desde o início, apareceu com uma universalidade que a permitiu reivindicar para si toda a vida inteiramente, com todas as suas funções, as suas alturas e profundidades, sentimentos, pensamentos e ações. Foi esse espírito de universalidade que lhe garantiu a vitória. Foi isso que a levou a professar que o Jesus proclamado por ela era o Logos divino ... Assim se ilumina com nova luz e aparece quase uma necessidade, até mesmo aquela poderosa atração pela qual chegou a absorver e a submeter a si o helenismo. Tudo o que era de alguma forma capaz de vida entrou como elemento na sua construção ... E essa religião não deveria vencer?"6.
A impressão que se tem ao ler este resumo é que o sucesso do cristianismo é devido a uma combinação de fatores. Alguns foram tão longe na busca das causas deste sucesso que encontraram vinte motivos a favor da fé e muitos outros que estavam agindo na direção oposta, como se o êxito final dependesse da prevalência do primeiro sobre o segundo.

Agora eu gostaria de destacar o limite inerente a tal abordagem histórica, mesmo quando esta é feita por historiadores que tem fé como aqueles que até agora tenho tido em conta. O limite, devido ao mesmo método histórico, é de dar mais importância ao sujeito do que ao objeto da missão, mais aos evangelizadores e às condições em que ela ocorre, do que ao seu conteúdo.

A razão que me empurra a fazê-lo é que isso é também o limite e o perigo inerente a tantas abordagens atuais e mediáticas, quando se fala de uma nova evangelização. Esquece-se de uma coisa muito simples: que Jesus mesmo tinha dado, antecipadamente, uma explicação da difusão do seu Evangelho e é dessa que devemos começar toda vez que nos propomos um novo esforço missionário.

Escutemos mais uma vez duas breves parábolas evangélicas, aquela da semente que cresce também à noite e aquela da semente de mostarda.
“E dizia: ‘acontece com o Reino de Deus o mesmo que com o homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. A terra por si mesma produz fruto: primeiro a erva, depois a espiga e, por fim, a espiga cheia de grãos. Quando o fruto está no ponto, imediatamente se lhe lança a foice, porque a colheita chegou’.”(Mc 4, 26-30).
Esta parábola, por si só, diz-nos que a razão essencial para o sucesso da missão cristã não vem de fora mas de dentro, não é obra do semeador e nem sequer principalmente do solo, mas da semente. A semente não pode ser jogada por si só, no entanto, é automaticamente e por si mesma  que ela cresce. Depois de ter jogado a semente o semeador pode também ir dormir, a vida da semente já não depende dele. Quando esta semente é "a semente jogada na terra e morta", ou seja  Jesus Cristo, nada poderá impedir que essa "dê muitos frutos". Pode-se dar todas as explicações que você quiser desses frutos, mas estas permanecerão sempre na superfície, nunca captarão o essencial.

Quem captou com clareza a prioridade do objeto do anúncio sobre o sujeito é o apóstolo Paulo. "Eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem fazia crescer”. Estas palavras parecem ser um comentário sobre a parábola de Jesus. Não se trata de três operações com a mesma importância; de fato, o apóstolo acrescenta: " Assim, pois, aquele que planta, nada é: aquele que rega nada é; mas imorta somente Deus, que dá o crescimento”. (1 Cor 3, 6 -7). A mesma distância qualitativa entre o sujeito e o objeto do anúncio está presente em outra palavra do Apóstolo: "Mas nós temos este tesouro em vasos de barro, para que este grande poder seja atribuído a Deus e não a nós" ( 2 Cor 4,7). Tudo isso se traduz nas exclamações programáticas: "Nós não pregamos a nós mesmos, mas o Senhor Jesus Cristo!" e ainda "Nós pregamos Cristo crucificado".

Jesus pronunciou uma segunda parábola com base na imagem da semente que explica o sucesso da missão cristã e que dever ser tida em conta hoje, diante da imensa tarefa de reevangelizar o mundo secularizado.

“E dizia: ‘com que compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda que, quando é semeado na terra – é a menor de todas as sementes da terra – mas, quando é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e deita grandes ramos, a tal ponto que as aves do céu se abrigam à sua sombra” (Mc 4, 30-32).

O ensinamento que Cristo nos dá com esta parábola é que o seu Evangelho e a sua mesma pessoa é a menor coisa que existe sobre a terra porque não há nada menor e mais fraco do que uma vida que termina numa morte de cruz. No entanto, esta minúscula "semente de mostarda" está destinada a se tornar uma grande árvore, de modo a acomodar em seus ramos todos os pássaros que vão refugiar-se ali. Isso significa que toda a criação, absolutamente toda irá ali encontrar refúgio.

Que contraste com as reconstruções históricas mencionadas acima! Tudo lá parecia incerto, aleatório, suspenso entre o sucesso e o fracasso; aqui tudo já foi decidido e garantido desde o começo! No final do episódio da unção de Betânia, Jesus pronunciou estas palavras: "Em verdade vos digo que, onde quer que este Evangelho seja anunciado, em todo o mundo, em memória dela se dirá também o que ela fez" (Mateus 26,13 ). A mesma consciência tranquila de que um dia sua mensagem seria anunciada “a todo o mundo”. E certamente não é uma profecia "post eventum", porque naquele momento, tudo pressagiava o oposto.

Até mesmo nisso quem melhor captou "o mistério escondido" foi Paulo. Me impressiona sempre um fato. O Apóstolo pregou no Areópago de Atenas e assistiu a uma rejeição da mensagem, educadamente expressada com a promessa de ouvi-lo em outra ocasião. De Corinto, onde ele foi logo depois, escreveu a Carta aos Romanos, onde afirma ter recebido a tarefa de conduzir "à obediência da fé todas as nações " (Rm 1, 5-6). O insucesso não avariou minimamente a sua confiança na mensagem: "Eu não me envergonho - grita - do evangelho, porque é potência de Deus para a salvação de todo aquele que crê, do judeu, primeiro, como do grego" (Rom 1, 16 ). Apóstolo Paulo, dá-nos um pouco "desta tua fé e desta tua coragem e não nos desanimaremos diante da tarefa sobre-humana que está diante de nós!

"Toda árvore, diz Jesus, é reconhecida pelos seus frutos" (Lc 6, 44). Isto é verdade para toda árvore, exceto para a árvore nascida dele, o cristianismo (e de fato ele está falando aqui dos homens); essa única árvore não é conhecida pelo fruto, mas a partir da semente e da raiz. No cristianismo a plenitude não está no fim, como na dialética hegeliana do devir (“o verdadeiro é o inteiro”), mas está no princípio; nenhum fruto, nem mesmo os maiores santos, acrescentam algo à perfeição do modelo. Neste sentido tem razão quem afirmou que “o cristianismo não é perfectível”7.

3. Semear e... ir dormir

Aquilo que os historiados das origens cristãs não registraram ou dão pouca importância é a certeza inabalável que os cristãos da época, pelo menos os melhores deles, tinham sobre a bondade e a vitória final da sua causa. "Vocês podem nos matar, mas não nos podem prejudicar", dizia Justino Mártir ao juiz romano que o condenava à morte. No final foi essa tranquila certeza que lhes garantiu a vitória e convenceu as autoridades políticas da inutilidade dos esforços para suprimir a fé cristã.

É isso o que mais nos acontece hoje: despertar nos cristãos, pelo menos naqueles que pretendem se dedicar ao trabalho da reevangelização, a certeza íntima da verdade do que anunciamos. "A Igreja, Paulo VI disse certa vez, precisa recuperar o desejo, o prazer e a certeza da sua verdade"8. Devemos acreditar, primeiramente nós, em tudo o que anunciamos; mas acreditar realmente, "com todo o coração, com toda a alma,  com toda a mente". Temos de ser capazes de dizer com Paulo: "Animados pelo mesmo espírito de fé, como está escrito: Eu acreditei, portanto, eu falei, nós também acreditamos e, portanto, falamos" (2 Coríntios 4, 13).

A tarefa prática que as duas parábolas de Jesus nos designam é semear. Semear com mãos cheias, “no momento adequado e inadequado" (2 Tm 4, 2). O semeador da  parábola que sai para semear não se preocupa com o fato de que algumas sementes acabem na rua e entre os espinhos, e pensar que aquele semeador, fora da metáfora, é ele mesmo, Jesus! A razão é que, neste caso, não se pode saber com antecedência qual terreno se revelará bom, ou duro como o asfalto e sufocante como um arbusto. Há no meio a liberdade humana que o homem não pode prever, e Deus não quer violar. Quantas vezes entre as pessoas que ouviram algum sermão ou leram um determinado livro, verifica-se que quem o tomou mais a sério e teve a vida mudada era a pessoa que menos se esperava, alguém que estava ali por acaso, ou até mesmo relutante. Eu mesmo poderia contar dezenas de casos.

Semear então e depois... ir dormir! Ou seja, semear e depois não estar lá o tempo todo olhando, quando brota, onde brota, quantos centímetros está crescendo diariamente. A germinação e o crescimento não é nosso negócio, mas de Deus e do ouvinte. Um grande humorista Inglês do século XIX, Jerome Klapka Jerome, disse que a melhor maneira de fazer demorar a ebulição da água numa panela é aquela de estar de olho nela e esperar com impaciência.

Fazer o contrário é fonte inevitável de ansiedade e de impaciência: coisas que Jesus não gosta e que ele nunca fez quando esteve na terra. No Evangelho, ele nunca parece ter pressa. "Não andem ansiosos pelo amanhã, dizia aos seus discípulos, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6, 34).

Neste sentido, o poeta cristão Charles Péguy põe na boca de Deus palavras que são boas para meditarmos:
"Disseram-me que há homens
Que trabalham bem e dormem mal.
Que não dormem. Que tem falta de confiança em mim.
É quase pior do que
se não trabalhassem mas dormissem, porque a preguiça
Não é pecado maior do que a ansiedade ...
Não falo, diz Deus, daqueles homens
que não trabalham e não dormem.
Esses são pecadores, é claro ...
Falo daqueles que trabalham e não dormem ...
Tenho pena deles. Eles não confiam em mim ...
Governam muito bem seus assuntos durante o dia.
Mas não querem confiar-me o governo durante a noite...
Quem não dorme é infiel à Esperança... "9.
As reflexões realizadas nesta meditação nos levam, em conclusão, a colocar na base do esforço para uma nova evangelização um grande ato de fé e de esperança para sacudir de cima qualquer sentimento de impotência e resignação. Temos diante de nós, é verdade, um mundo fechado no secularismo, inebriado pelos sucessos da técnica e das possibilidades oferecidas pela ciência, refratário ao anúncio do Evangelho. Mas era talvez menos confiante em si e menos refratário ao evangelho o mundo no qual viviam os primeiros cristãos, os gregos com a sua sabedoria e o Império Romano com o seu poder?

Se houver algo que possamos fazer, depois de ter "semeado", é "irrigar", com a oração, a semente lançada. Por isso terminemos com a oração que a liturgia nos faz recitar na Missa "para a evangelização dos povos":

Ó Deus, tu queres que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade; olha quão grande é a tua messe e manda operários, para que seja anunciado o Evangelho à toda criatura, e o teu povo, reunido pela palavra de vida e moldado pela força dos sacramentos, prossiga no caminho da salvação e do amor. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

___________________
1 A. von Harnack,….
2 Origene, C. Cels. III, 9.
3 Op. cit. p. 321- s.
4 H. Chadwick, The early Church, Penguin Books 1967, pp. 56-58.
5 A. von Harnack, Missione e propagazione del cristianesimo nei primi tre secoli, Rist. anast., Cosenza 1986, p. 173.
6 Harnack, op. cit., p. 370.
7 S.Kierkegaard, Diario, X5 A 98 (ed. C. Fabro, Brescia II, 1963, pp.386 ss).
8 Discorso all’udienza generale del 29 Novembre 1972 (Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, X, pp. 1210s.).
9 Ch. Péguy, Il portico del mistero della seconda virtù, Jaca Book, Milano 1978, pp. 120 s.

domingo, 27 de novembro de 2011

Novo Ano Litúrgico B: Evangelho de São Marcos



PAPA BENTO XVI

ANGELUS

Praça de São Pedro
I Domingo de Advento, 27 de Novembro de 2011



Amados irmãos e irmãs!

Iniciamos hoje com toda a Igreja o novo Ano litúrgico: um caminho novo de fé, para viver juntos nas comunidades cristãs, mas também, como sempre, para percorrer no âmbito da história do mundo, a fim de a abrir ao mistério de Deus, à salvação que vem do seu amor. O Ano litúrgico começa com o Tempo do Advento: tempo maravilhoso no qual desperta nos corações a expectativa do retorno de Cristo e a memória da sua primeira vinda, quando se despojou da sua glória divina para assumir a nossa carne mortal.

«Vigiai!». Este é o apelo de Jesus no Evangelho de hoje. Dirige-o não só aos seus discípulos, mas a todos: «Vigiai!» (Mt 13, 37). É uma chamada saudável a recordar-nos de que a vida não tem só a dimensão terrena, mas está projetada para um «além», como uma pequena planta que germina da terra e se abre para o céu. Uma pequenina planta pensante, o homem, dotada de liberdade e de responsabilidade, pelo que cada um de nós será chamado a prestar contas de como viveu, como utilizou as suas capacidades: se as conservou só para si ou se as fez frutificar inclusive a favor dos irmãos.

Também Isaías, o profeta do Advento, nos faz refletir hoje com uma oração amargurada, dirigida a Deus em nome do povo. Ele reconhece as faltas da sua gente, e a um certo ponto diz: «Ninguém invocava o teu nome, nem se esforçava por se apoiar em ti; porque escondias de nós a tua face, e nos entregavas às nossas iniquidades» (Is 64, 6). Como não permanecer admirado com esta descrição? Parece refletir certos panoramas do mundo pós-moderno: as cidades onde a vida se torna anônima e horizontal, onde parece que Deus está ausente e o homem é o único dono, como se fosse o artífice e o realizador de tudo: as construções, o trabalho, a economia, os transportes, as ciências, a técnica, parece que tudo depende só do homem. E por vezes, neste mundo que parece quase perfeito, acontecem coisas arrasadoras, ou na natureza, ou na sociedade, pelo que nós pensamos que Deus se retirou, que nos tenha, por assim dizer, abandonado a nós mesmos.

Na realidade, o verdadeiro «dono» do mundo não é o homem, mas Deus. O Evangelho diz: «Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não seja que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir» (Mc 13, 35-36). O Tempo do Advento chega todos os anos para nos recordar isto, para que a nossa vida encontre a sua orientação justa, rumo ao rosto de Deus. O rosto não de um «dono», mas de um Pai, de um Amigo. Com a Virgem Maria, que nos guia no caminho do Advento, façamos nossas as palavras do profeta. «Mas Tu, Senhor, é que és o nosso Pai. Nós somos a argila e Tu és o oleiro. Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos» (Is 64, 7).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Deus é fiel às suas promessas, afirma Bento XVI

O Papa Bento XVI afirmou que Deus «é sempre fiel às suas promessas», mas que pode «surpreender» pela forma de cumpri-las, numa mensagem de Natal de rádio divulgada esta sexta-feira pela BBC.

«Estou feliz por ter a oportunidade de saudá-los novamente e de saudar os ouvintes agora que nos preparamos para celebrar o nascimento de Cristo», declarou o Papa na mensagem gravada quarta-feira em Roma e divulgada três meses depois da sua histórica visita à Grã-Bretanha.

«Deus é sempre fiel às suas promessas e surpreende-nos geralmente na forma como as cumpre», afirmou o chefe da Igreja Católica.

Bento XVI citou como exemplo o facto de que «os filhos de Israel esperavam o messias que Deus havia prometido e o imaginavam como um grande dirigente que os libertaria da dominação estrangeira», na época em que a Terra Santa formava parte da Império Romano.

«Mas Deus surpreendeu porque foi um menino, Jesus, que veio para salvá-los», completou.

O Sumo Pontífice concluiu a mensagem desejando um «feliz Natal» aos ouvintes.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Antífona do Ó

O Sapientia quæ ex ore Altissimi prodisti, attingens a fine usque ad finem, fortiter suaviter disponens omnia: Veni ad docendum nos viam prudentiae.

O Adonái et Dux domus Israel, qui Móysi in igne flammæ rubi apparuísti, et ei in Sina legem dedísti: veni ad rediméndum nos in brácchio exténto.

O Radix Jesse qui stas in signum populorum, super quem continebunt reges suum, quem gentes deprecabuntur: Veni ad liberandum nos; jam noli tardare.

O Clavis David et sceptrum domus Israel: qui aperis, et nemo claudit; claudis et nemo aperit: Veni, et educ vinctum de domo carceris, sedentem in tenebris et umbra mortis.

O Oriens splendor lucis æternæ, et sol justitiæ Veni et illumina sedentes in tenebris et umbra mortis.

O Rex gentium et desideratus earum lapisque angularis, qui facis utraque unum: Veni et salva hominem quem de limo formasti.

O Emmanuel, Rex et legifer noster, exspectatio gentium, et Salvador earum: Veni ad salvandum nos, Domine Deus noster.

As Antífonas do Ó são sete antífonas especiais, cantadas no Tempo do Advento, especialmente de 17 a 23 de dezembro antes e depois do Magnificat, na hora canônica dasVésperas. As Antífonas do Ó são assim chamadas porque tem início com esse vocativo.

As Antífonas do Ó foram compostas entre o século VII e o século VIII, sendo um compêndio de cristologia da antiga Igreja, um resumo expressivo do desejo de salvação, tanto de Israel no Antigo Testamento, como da Igreja no Novo Testamento. São orações curtas, dirigidas a Cristo, que resumem o espítito do Advento e do Natal. Expressam a admiração da Igreja diante do mistério de Deus feito Homem, buscando a compreensão cada vez mais profunda de seu mistério e a súplica final urgente: «Vem, não tardes mais!». Todas as sete antífonas são súplicas a Cristo, em cada dia, invocado com um título diferente, um título messiânico tomado do Antigo Testamento.

A reforma liturgica pós Vaticano II, ao introduzir o vernáculo na liturgia, não esqueceu os textos das Antífonas do Ó, veneráveis pela antiguidade e atribuídos por muitos ao Papa Gregório Magno (+604). Ela os valorizou ainda mais com aclamação ao Evangelho da Missa, além de conservá-los como antífonas do Magnificat. Cada antífona é composta de uma invocação, ligada a um símbolo do Messias, e de uma súplica, introduzida pelo verbo "vir".

Se lídas em sentido inverso, isto é, da última para a primeira, as iniciais latinas da primera palavra depois da interjeição «Ó», resultam no acróstico «ERO CRAS», que significa «serei amanhã, virei amanhã», que é a resposta do Messias à súplica dos fiéis.

Com a Igreja, rezamos a Antífona do Ó:

Ó Sabedoria da boca do Altíssimo, que abrange o começo e o fim e compenetra tudo com sua força e brandura! Vem, mostra-nos o caminho do reconhecimento.

Ó Adonai, Deus forte, condutor da casa de Israel! Apareceste a Moisés no fogo da sarça ardente e lhe deste a lei do Sinai. Vem, salva-nos com teu braço levantado.

Ó rebento da raiz de Jessé e estandarte dos povos, em tua frente emudecem os reis e os povos clamam por ti. Não tardes mais, vem libertar-nos!

Ó chave de Davi e cetro da casa de Israel! Tu abres e ninguém fecha, tu fechas e ninguém abre. Vem e liberta os cativos quejazem no cárcere no meio cias trevas e das sombras da morte.

Ó Oriente, Tu surges, brilho da luz eterna e sol dci justiça! Vem e traze-nos tua luz traze-a a todos os que jazem nas trevas e nas sombras da morte.

Ó Rei dos povos, saudade de todos os homens, pedra angular que reúne o que estava separado! Vem e salva os homens que criaste do barro.

Ó Emanuel, nosso Rei e Juiz, saudade dos povos e Redentor! Vem salvar-nos, Senhor Deus nosso!"

"Derramai, ó céus, o vosso orvalho! Nuvens chovei o justo! 
Abra-se a terra e germine o Salvador!"


Fontes:


Rorate caeli desuper, et nubes pluant iustum!

"Rorate Caeli" é um tradicional canto do tempo de Advento, tendo o seu refrão sido inspirado no texto do profeta Isaías 45.

Assim, louvando a Tradição da Igreja, que nos traz este belíssimo canto na espera do Salvador, trazemos a sua tradução:

 Derramai, ó Céus, das alturas, o seu orvalho, e as nuvens chovam o Justo

Não vos irriteis, Senhor, e não recordeis nossas iniqüidades.
Eis que sua Cidade Santa foi feita um deserto:
Sião um deserto tounou-se, Jerusalém está desolada; 
a casa de Sua santificação e de Sua glória, onde Vos louvaram nossos pais.

Derramai, ó Céus, das alturas, o seu orvalho, e as nuvens chovam o Justo

Pecamos, e estamos vivendo como imundos,
caímos nas profundezas, como uma folha morta no universo
e nossas iniqüidades nos arrastam como um vento forte:
escondeste Vossa face de nós e nos aquebrantastes com o peso de nossa própria iniqüidade.

Derramai, ó Céus, das alturas, o seu orvalho, e as nuvens chovam o Justo

Vede, Senhor, a aflição de seu povo, 
e mandai rapidamente Aquele que está para vir:
enviai diante de nós o Cordeiro, Senhor de toda a Terra, da Rocha do deserto aos Montes das filhas de Sião,
e retirai o severo jugo de nossa sujeição.

Derramai, ó Céus, das alturas, o seu orvalho, e as nuvens chovam o Justo

Consolai-vos, Consolai-vos, Ó Meu povo, pois que vem tua Salvação.
Por que estais se consumindo em aflição, por que vos renovais em sua dor? 
Eu salvar-te-ei, não tenhais medo: Eu Sou o Senhor teu Deus,
o Santo de Israel, o teu Redentor.

Derramai, ó Céus, das alturas, o seu orvalho, e as nuvens chovam o Justo!



Apostolado Sociedade Católica: Rorate Caeli - Tradução. Tradução de Carlos Eduardo Maculan e Izabel Ribeiro Filippi. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=430 Desde 19/12/2008.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Espera do Senhor - Ir. Kelly Patrícia

Essa música da Ir. Kelly Patrícia tem tudo a ver com esse tempo forte do Advento, em que aguardamos a vinda do Senhor, orando e vigiando.


♫  Não sei Senhor
A hora em que vireis
Portanto velo sem cessar, fico atenta
Como vossa esposa eleita
Porque sei que gostais de vir sem ser notado
Mas o coração puro, de longe, Senhor, vos perceberá (2x)
Aguardo-vos Senhor, com quietude e silêncio
Com grande saudade em meu coração
Sinto que o amor para convosco se transforma em fogo
E como uma chama se elevará ao céu no fim da vida (2x)
E então serão satisfeitos todos os meus desejos (2x)

Não sei Senhor, a hora em que vireis... 
♫ 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

ADVENTO COM O PROFETA ISAÍAS



O profeta Isaías é chamado “o quinto evangelista”. Por quê? Porque, séculos antes de Jesus, enquanto profeta, portanto, falando em nome Deus, interpretou a realidade do seu tempo em termos que certamente ao mesmo tempo apontavam para o que haveria de acontecer com o próprio Jesus. São famosas, por exemplo, as palavras de Isaías que a Igreja aplica a Jesus particularmente na Sexta-Feira da Paixão: tem-se a impressão de que o profeta assistiu aos sofrimentos do Redentor e os registrou pormenorizadamente.

A Igreja nos propõe a leitura de Isaías também no tempo litúrgico do Advento. Também neste caso parece que o profeta viu com seus olhos a chegada do Salvador do mundo e, por isso, exortou as pessoas do seu tempo a se prepararem para acolhê-lo devidamente. Aliás, é o que faz São João Batista, repetindo aos homens e mulheres do seu tempo as mesmas palavras de Isaías.

Por isso, Isaías é figura importante do tempo do Advento e convém que prestemos atenção às suas exortações. O que ele diz? No primeiro domingo do Advento Isaías contempla, em visão, o monte de Sião, onde está construída Jerusalém e, nela, se ergue o templo do Senhor. Ele vê todos os povos voltarem seus olhos para lá e acorrerem ao encontro do Senhor a fim de ouvir sua Palavra e observar seus preceitos, porque é precisamente no templo do Senhor que o Senhor habita.

Não foi em Jerusalém que Jesus se manifestou ao mundo como Salvador de todos os povos? Não foi em Jerusalém que ele foi crucificado e ressuscitou? Pois que seja assim também durante o tempo do Advento: que todos os corações se voltem para Jerusalém, propriamente, se voltem para Jesus.

No segundo domingo do Advento Isaías retorna e diz que “naqueles dias, nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, sugira o rebento de uma flor; sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus” (Isaías 11,1-2). Em seguida, anuncia um mundo novo de justiça e de paz por obra do Messias: “Naquele dia, a raiz de Jessé se erguerá como um sinal entre os povos; hão de buscá-la as nações, e gloriosa será sua morada” (Isaías 11,10).

Novamente o profeta aponta para o futuro Messias ao qual acorrerão todos os povos, pois Ele é a Salvação. Dessa forma, o profeta exortava seus contemporâneos a manterem firme a esperança na vinda do Salvador do mundo. Foi o Advento mais longo, mais esperado, até que se realizou em Jesus.

Por isso, João Batista, que é recordado no Evangelho do segundo domingo do Advento, também ele apela para o profeta Isaías: o profeta se autodefinia como “a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas” (Mateus 3,3). Também hoje ressoa o convite de Isaías, pela voz de João Batista e pela voz da Igreja: endireitar os caminhos, preencher os vales, arrasar os montes da vida para que o Messias, Jesus, possa vir ao nosso encontro no Natal.

No terceiro domingo do Advento as palavras de Isaías são uma conclamação à alegria pela proximidade da vida do Salvador: “Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio. Germine e exulte de alegria e louvores” (Isaías 36,1-2). O texto prossegue: “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmais os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é o vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar” (Isaías 35,3-4).

O Advento não é só tempo de olhar para Jerusalém (primeiro domingo), de preparar o caminho do Senhor (segundo domingo), mas também de alegrar-se porque o Senhor está para chegar (terceiro domingo). A alegria messiânica, tão bem celebrada pelo evangelista São Lucas, é um dos sinais da chegada do Messias. Esta é a razão pela qual o terceiro domingo do Advento é chamado, em latim, “Dominica Laetare”, isto é, “Domingo do Alegrai-vos”, e o celebrante pode vestir-se de cor-de-rosa, em vez de roxo, precisamente para significar a alegria da proximidade do Redentor.

Finalmente, no quarto domingo do Advento o profeta Isaías aponta para Nossa Senhora, aquela que será a Mãe do Messias: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (que significa “Deus conosco”) (Isaías 7,14). Dessa forma, nós também somos convidados a olhar para Maria, a portadora do Senhor que vem ao nosso encontro com Jesus nos braços, o que ocorre particularmente no Natal.

Como você vê, Isaías nos ajuda a viver em profundidade o Advento e a nos preparar bem para o santo Natal. Fique atento à Palavra de Deus, alegre-se, admire e agradeça a Providência divina que, séculos antes do nascimento do Salvador, anunciou por boca de Isaías o que iria acontecer: o nascimento do Filho de Deus, que recebeu o nome de “Jesus”, isto é, “Deus salva”. O Natal é o início da nossa salvação: como não alegrar-se? Mas é preciso também preparar-se. Viva intensamente o Advento para celebrar intensamente o Natal!