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quarta-feira, 29 de junho de 2011

UT UNUM SINT!

Comunidade Ecumênica de Taizé?


Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Nº 195, Ano 1976, p. 113

Por Dom Estevão Bettencourt, Osb


Em síntese: O mosteiro protestante de Taizé é obra do Irmão Roger Schutz e seus companheiros. Roger Schutz, movido pelo desejo de propiciar a reconciliação entre os cristãos e, em geral, entre os homens divididos, houve por bem constituir, a partir de 1940, uma comunidade dedicada à oração, ao trabalho e ao acolhimento de visitantes ou peregrinos. A obra encontrou resistência durante os seus vinte primeiros anos, nos ambientes protestantes. Hoje em dia, porém, goza de estima e do apoio tanto dos protestantes como dos católicos; os Papas João XXIII e Paulo VI têm-lhe dado eloqüentes testemunhos de benevolência.

Os monges de Taizé restauraram no Protestantismo a prática dos votos religiosos: celibato de bens materiais e obediência. Dedicam algumas horas do dia à oração (comunitária e particular). Aplicam-se ao trabalho (manual e intelectual) para sobreviver e para auxiliar as pessoas e populações necessitadas: na América Latina, promoveram a operação "Esperança", que se destina a favorecer os mais pobres do continente. A fim de incentivar a sua obra de reconciliar, os irmãos de Taizé têm fundado pequenas Fraternidades fora de Taizé, na Europa e na América (inclusive na cidade de Vitória, ES, Brasil).

Os jovens têm sido fortemente atraídos pela mensagem de reconciliação e otimismo proveniente de Taizé. O afluxo dos mesmos ao mosteiro é vultuoso, principalmente nas férias de verão e de Páscoa. De 30/VIII a 1/IX/74 inauguraram o Concílio dos Jovens, que se protrairá por diversas sessões em várias partes do mundo durante alguns anos. Os temas do Concílio visam a despertar a juventude e, em geral, os homens de hoje para a responsabilidade que a história lhes impõe.

Em suma, Taizé é um sinal de esperança cristã em nossos dias.

Comentário : O movimento ecumênico visa à restauração da unidade entre os cristãos. Essa unidade foi violada por cismas sucessivos:

- em 431 e 451, separaram-se da comunhão da Igreja os nestorianos e monofisitas (que hoje constituem pequenas comunidades esparsas pelo Oriente);

- em 1054, sob o Patriarca Miguel Cerulário de Constantinopla, separaram-se os bizantinos, arrastando consigo vários povos da Europa Oriental. São os cristãs chamados "ortodoxos" (ortodoxos, porque no séc. V não haviam caído nas heresias do nestorianismo e do monofisismo);
- em 1517, Lutero deu início ao movimento cismático protestante, que se continuou no Calvinismo, no Anglicanismo (ao menos na "Low Church") e nas denominações protestantes posteriores.

Frente a essas comunidades cristãs não católicas, existe a Igreja Católica, que se deriva, sem interrupção até hoje, de Jesus Cristo e dos Apóstolos.

Ora nos últimos tempos têm-se verificado tentativas numerosas de aproximação dos cristãos entre si. Uma das mais belas e alvissareiras é o mosteiro de Taizé, fundado por monges protestantes, mas aberto a todos os cristãos, na expectativa de um reencontro de todos na hora e nas circunstâncias que a Providência Divina houver por bem assinalar.

O mosteiro de Taizé, desde a sua fundação, há trinta e seis anos, vem chamando mais e mais a atenção do mundo cristão e não cristão por causa do ideal que representa. Eis por que nos propomos, nas páginas que se seguem, apresentar Taizé e as grande linhas de pensamento que inspiram a sua comunidade.

1. Origens e desenvolvimento

O fundador do mosteiro de Taizé é o Irmão Roger Schutz. Nasceu aos 12 de maio de 1915 na Provença (França) como filho de família protestante; seu pai, Charles Schutz, de origem suíça, era pastor. Desde cedo foi atraído pela Igreja Católica, como refere o próprio Roger Schutz:
"Quando eu tinha cinco anos, entramos numa Igreja católica. Tudo aí mergulhava na penumbra. A luz que iluminava a Virgem e a reserva eucarística, deixou em mim uma imagem até hoje inalterada" ("Ta fête soit sans fin", 30/05/69).
Quando o menino tinha treze anos, seus pais pensaram em mandá-lo estudar numa cidade vizinha, onde ficaria hospedado em casa de família. Poderiam escolher entre uma família protestante e outra católica. Esta era pobre, pois constava de uma viúva com numerosos filhos. Os pais de Roger eram propensos a ajudar essa viúva, pagando-lhe o preço da pensão do menino, mas hesitavam por causa da fé católica da viúva. Finalmente optaram pelo alvitre mais generoso, confiando a esta o seu filho protestante. Em conseqüência, Roger Schutz, em seus anos de formação, compartilhou o estilo de vida de uma família protestante (a sua) como também o de uma família católica.

Durante os seus anos de estudos na Universidade de Lausanne, o jovem protestante leu obras clássicas do Catolicismo, que nele foram aumentando as tendências ao ecumenismo. Estas desabrocharam na idéia de fundar uma comunidade religiosa que se dedicasse à causa da aproximação dos cristãos.

Em 1940, durante a segunda guerra mundial, Roger Schutz procurava um lugar onde estabeleceria a sua fundação. Na Borgonha, perto de Cluny (território francês não ocupado pelos alemães), o jovem idealista encontrou o vilarejo de Taizé, onde lhe apontaram uma casa favorável aos seus propósitos. Foi lá que Roger resolveu fixar-se. Começou então a sua obra, acolhendo os refugiados de guerra que o procurassem. Esta situação se prolongou por dois anos, quando em 1942 Roger Schutz teve que deixar Taizé, pois o território fora ocupado pelos alemães; retirou-se então para Genebra (Suíça), onde conheceu os seus primeiros discípulos: Max Thurian, Pierre Souvairam, Daniel de Montmollin. Em 1944 Roger, com seus três companheiros, voltou a Taizé, onde a comunidade começou a se dedicar a meninos vítimas da guerra e a prisioneiros alemães.

Na festa de Páscoa de 1949, os irmãos de Taizé, em número de sete, emitiram os votos que os consagravam para o resto da vida ao serviço do Senhor. Este passo se revestia de enorme significado. Com efeito, Martinho Lutero, que deu início à Reforma protestante em 1517, rompeu os seus votos religiosos e os condenou. Conseqüentemente, o protestantismo nunca conhecera vida monástica nem comunidades constituídas por votos religiosos. Os teólogos protestantes desaconselhavam aos irmãos de Taizé a introdução desse tipo de vida na Reforma, alegando que os votos eram contrários à liberdade sugerida pelo Espírito Santo. Não obstante, Roger Schutz e seus companheiros julgaram que deviam firmar seu gênero de vida mediante uma profissão religiosa, não somente para dar certa estabilidade à obra iniciada, mas também, e principalmente, para serem coerentes com o próprio Evangelho. Eis como o Irmão Roger Schutz expõe o seu pensamento:
"Muitas vezes nos fizeram a nós (Irmãos de Taizé_ esta pergunta: "Vocês adotaram esses três pontos (os votos de castidade, pobreza e obediência) para copiar o cenobitismo tradicional ?" Temos de responder logo que tentamos sinceramente não nos deixar impressionar pela experiência do passado. Quisemos apagar tudo para experimentar tudo de novo. E, apesar disto, encontramo-nos um dia diante da evidência: não podíamos sustentar a nossa vocação sem nos comprometer totalmente na comunhão de bens, na aceitação de uma autoridade, no celibato" ("Naissance de communautés dans l'Église de la Reforme", em "Verbum Caro" 1955, p. 20). ¹
Em 1951, foi pela primeira vez editada a "Regra de Taizé", que estipulava as estruturas e os objetivos do novo mosteiro. Em 1952, os irmãos de Cluny começaram a fazer fundações em territórios de missão. Em novembro de 1958, Roger Schutz foi recebido em audiência pelo Papa João XXIII, e em fevereiro de 1962 pelo Patriarca Atenágoras. Em 1964, a comunidade já contava 65 irmãos.

Os primeiros vinte anos do mosteiro de Taizé foram difíceis, pois os monges, tidos como inovadores do Protestantismo, não eram compreendidos pelos seus irmãos na Reforma. Todavia a figura e a obra do Papa João XXIII, que mais de uma vez recebeu e encorajou o Ir. Roger Schutz, contribuíram notavelmente para que a nova comunidade superasse os primeiros obstáculos de sua existência e se implantasse definitivamente. Durante o Concílio do Vaticano II (1962-1965) os Irmãos Roger Schutz e Max Thurian foram convidados a comparecer às sessões respectivas como observadores.

Nos dias 5 e 6 de agosto de 1962, foi inaugurada em Taizé a Igreja da Reconciliação, símbolo das aspirações ecumênicas que alimentam a comunidade monástica local. A construção desse templo deve-se a jovens alemães, que a quiseram empreender em sinal de expiação e reconciliação. À entrada da Igreja, lêem-se em francês, alemão e inglês os seguintes dizeres:

"Vós que entrais aqui, reconciliai-vos:
o pai com seu filho,
o marido com sua esposa,
o que crê com aquele que não crê,
o cristão com seu irmão separado".

É em vista de oferecer a todos os cristãos, e mesmo a todos os homens, uma ocasião de se aproximarem e unirem entre si que o mosteiro de Taizé existe primordialmente. É esta nota que o caracteriza no mundo inteiro.

Além disto, Taizé tem a vocação de servir aos homens também no plano material; os irmãos são úteis aos habitantes da região em que vivem, mantendo cooperativas agrícolas e pecuárias, dedicando-se à medicina e à saúde da população, trabalhando em olaria, pintura e confecção de vitrais. Em 1952 alguns monges foram enviados em missão entre os operários na região de Monceau-les-Mines; todavia esta experiência não durou muito. Dilataram seus horizontes até a América Latina: em 1962, organizaram uma coleta para atender às vítimas de um terremoto no Chile; em janeiro de 1963, o Ir. Roger Schutz lançou a "Operação Esperança" destinada a auxiliar as populações necessitadas do nosso continente; em conseqüência, no Brasil foi, entre outras coisas, distribuída gratuitamente uma edição do Novo Testamento.

Nos últimos dez anos, Taizé assumiu ainda outra faceta: tornou-se um ponto de convergência dos jovens. Estes vão ao mosteiro atraídos pela mensagem de esperança que daí decorre; muitos são protestantes, outros católicos e ainda outros são indefinidos e curiosos, à procura de uma resposta para as suas indagações. De 30 de agosto a 1º de setembro de 1974, teve início o chamado "Concílio de Jovens", do qual falaremos adiante.

Importa-nos agora realçar as notas principais da espiritualidade de Taizé, que, de resto, vêm a ser, em grande parte, as da vida monástica ou religiosa sempre vivida na Igreja Católica.


2. Taizé : as grande linhas de pensamento

2.1. O ideal e suas etapas

O ideal dos irmãos de Taizé é o da vida monástica, ou seja, o da consagração total ao Senhor; é a procura comunitária do Único e Definitivo em meio às coisas transitórias deste mundo. Para tanto, os monges se nutrem da espiritualidade bíblica e procuram viver segundo a Regra monástica, que estipula três grande atitudes interiores e exteriores: pobreza, castidade e obediência. Está claro que a fé dos monges de Taizé é a protestante; os membros da comunidade se recrutam entre as diversas denominações do Protestantismo: luteranismo, presbiterianismo, anglicanismo, congregacionanalismo...

Por conseguinte, o candidato que deseje incorporar-se ao mosteiro de Taizé, submete-se, antes do mais, a um período de três anos de formação (equivalente ao noviciado das comunidades católicas). Terminado esse prazo, o novo irmão, caso seja aceito pela comunidade, é admitido aos votos monásticos; estes são emitidos geralmente no decorrer da liturgia da manhã de Páscoa, depois da renovação das promessas do Batismo. O candidato prostra-se então por terra, enquanto a comunidade canta a Sl 125. A seguir, o Prior dirige-lhe uma exortação; o candidato profere os seus votos; troca o ósculo da paz com os irmãos; estes, por fim, lhe impõem as mãos em sinal de comunhão e partilha dos mesmos bens espirituais. Eis o texto dos compromissos que o monge de Taizé assume ao professar:

"- Queres, por amor a Cristo, consagrar-te a Ele com todo o teu ser...?

- Queres dedicar-te ao serviço de Deus, na nossa comunidade, em comunhão com os teus irmãos...?

- Renunciando a toda propriedade, queres viver com os teus irmãos não só na comunidade de bens materiais, mas também na dos bens espirituais, esforçando-te por abrir o teu coração? ...

- A fim de estares mais disponível a servir aos teus irmãos e a fim de te dares sem partilha ao amor de Cristo, queres permanecer no celibato?...

- Para que sejamos um só coração e uma só alma e para que a nossa unidade de serviço se realize plenamente, queres adotar as decisões tomadas em comunidade e expressas pelo Prior...?

- Vendo sempre o Cristo em teus irmãos, queres vigiar sobre eles nos dias bons e maus, na abundância e na pobreza, no sofrimento e na alegria...?"

Como se vê, os três votos de pobreza, castidade e obediência são enquadrados na moldura do amor a Cristo e do serviço a Deus e aos homens.

O Prior Irmão Roger Schutz explica o significado de cada um desses compromissos:
"Pela castidade desejamos ser homens de um só amor, de um só amor de Cristo,... homens de tal modo voltados para a esperança de Deus que desejam ter os braços abertos a todos e a tudo, ao universal, à catolicidade, ao ecumenismo... Aquele que se compromete na castidade do celibato, só a pode sustentar se vive na espera de Deus. Ser homem de um só amor é ser o homem que dá a sua vida, e por sua vida dá sinais do único amor de Deus que o anima".
Sobre a obediência diz o Prior:
"Em Taizé chegamos à conclusão de que a autoridade tem por função suscitar a unidade, reunir aqueles que sempre tendem a se dispersar ou mesmo, por vezes, a se opor.
 ...O que se impôs à nossa evidência dia após dia, é que a tarefa pastoral de quem recebeu função de autoridade... é a de tender a suscitar a unanimidade, uma anima, uma só alma na comunidade".
A respeito da pobreza, Ir. Roger Schutz faz as seguintes ponderações:

"Pobreza! Eis uma palavra que esfola os lábios. Redigindo a Regra de Taizé, não ousei utilizá-la; preferi falar de compromisso com a comunhão de bens; esta pode levar à pobreza.
Hoje, se ouso falar de vocação para a pobreza, faço-o porque a solidariedade com o mundo dos pobres se impôs a nós. E, apesar disto, fica sempre um mal-estar, pois no nosso Ocidente teremos sempre o pão sobre a mesa. O espírito de pobreza está nas antípodas da necessidade de segurança profundamente inscrita no nosso ser. Aquele que vive em espírito de pobreza, tem sua segurança em Deus; seu hoje é o de Deus. A pobreza em espírito fica sendo a atitude em que se realiza a nossa dependência em relação a Deus; no espírito de pobreza, sabemos que os dons pessoais - inteligência, sensibilidade, - ficam sendo muito relativos em relação ao dom por excelência (caridade)". 
As tendências da instituição monástica em Taizé voltam-se fortemente para a vida contemplativa ou a oração. O mosteiro dispõe de pequenas ermidas, nas quais os monges se podem retirar ou por alguns dias ou para passar a noite em oração. A prece e a solidão são atitudes cristãs que alimentam a grande expectativa do Definitivo, o qual porá fim ao provisório, ou ainda ... a expectativa do Senhor como Juiz e Consumador da história.

Passemos a uma segunda nota de espiritualidade de Taizé.

2.2. Ecumenismo e Reconciliação

O mosteiro de Taizé foi fundado sob o signo da procura da unidade entre os cristãos separados e, mais amplamente,... entre todos os homens divididos por rixas ou por preconceitos de raça, classe, religião... Essa tendência à unidade em Taizé foi notavelmente reforçada sob o pontificado do Papa João XXIII, que, da parte católica, exprimiu, com eloqüência singular, o apelo ao ecumenismo. Conservando-se protestantes, os irmãos de Taizé aspiram à unidade dos cristãos entre si "como e quando o Senhor a quiser".

Em vista de tão nobre fim, dedicam-se principalmente à oração. O Ofício litúrgico no mosteiro é celebrado três vezes por dia no coro: de manhã, ao meio-dia e à tarde; em certas datas, celebra-se também o Ofício de Vigílias, que é noturno. A Liturgia das Horas consta de textos bíblicos (salmos, leituras do Antigo e do Novo Testamento), cantos e preces, cujos dizeres fazem ressoar a espiritualidade cristã comum a católicos, protestantes e ortodoxos. Dessa oração participam numerosos visitantes e peregrinos, que não são curiosos, mas cristãos que desejam pedir em prol da unidade cristã...

A todos aqueles que vêm ter aqui, desejamos dizer e redizer incessantemente o que está inscrito no frontispício da Igreja: que o pai se reconcilie com o filho, o marido com a esposa, o crente com aquele que não pode crer, o irmão de uma confissão com o irmão separado.

De certo modo, a oração da nossa comunidade, em meio a esses peregrinos, consiste em dizer com eles: "Olha-nos, Senhor; vê o que somos hoje: divididos, separados pela história, incapazes de realizar a unidade". E eles que, na verdade, homens e mulheres vêm rezar aqui, pedindo a reconciliação de uma esposa com seu esposo, de um irmão com o seu irmão. E todas estas intenções de oração estão inscritas preto sobre branco e nos são confiadas. Levamo-las em nossa própria oração, certos de que o ecumenismo é a reconciliação. O ecumenismo começa sempre por essa reconciliação do homem com Deus e, depois, do homem com o homem, na família, profissão, na sociedade. É somente a partir dessas formas de reconciliação mais próximas que se pode caminhar em demanda da grande reconciliação universal de todos nós na Igreja una".

Como dito atrás, as aspirações ecumênicas dos monges de Taizé não foram devidamente entendidas nos seus primeiros vinte anos de existência, principalmente por parte de denominações protestantes. Atualmente, porém, o mosteiro é ponto de convergência e objeto de profunda estima para numerosas comunidades eclesiais protestantes, bispos luteranos e pastores de outras confissões cristãs dos países escandinavos, germânicos, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Verificou-se evidente mudança de mentalidade, que é certamente um dos frutos obtidos pela oração e o esforço dos monges de Taizé. Quanto aos fiéis católicos, costumam olhar com simpatia o movimento de Taizé, ao qual os Sumos Pontífices João XXIII e Paulo VI têm dado vivo apoio: é entrando em diálogo e procurando a aproximação que os cristãos derrubarão as barreiras humanas que os separam. A maneira como a unidade dos discípulos de Cristo se dará, não é objeto de discussão em Taizé, pois isto foge à alçada do programa dos monges e de seus visitantes; católicos e protestantes talvez encarem de maneiras diferentes essa questão. Como quer que seja, é somente o Espírito de Deus, com a sua graça, que pode restaurar a unidade dos irmãos separados, iluminando as inteligências e movendo os corações. E o Espírito há de ser invocado pela oração assídua: "Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!" (Lc 11, 13).

A espiritualidade de Taizé, baseada, antes do mais, sobre a oração, se alimenta e exprime também pelo trabalho.

2.3. Trabalho

A comunidade de Taizé dedica-se intensamente ao trabalho, não só porque este é um fator de ascese e disciplina na vida dos monges, mas também porque, sendo pobres, os irmãos necessitam de exercer um ganha-pão. O dinheiro que eles assim adquirem não beneficia apenas a comunidade, mas também os semelhantes necessitados que os irmãos possam atingir.

As atividades dos monges são variadas.

Há os que se entregam à confecção de obras de arte: pintura, vitrais, cerâmica (certos artefatos de cerâmica de Taizé, por exemplo, têm sido levados a exposições internacionais, inclusive no Japão). Outros se dedicam à arte gráfica, atendendo ao setor de edições do mosteiro. Também o trabalho intelectual - estudo, redação e publicação de livros - interessa aos irmãos: alguns se aprofundam na teologia, principalmente na teologia ecumênica; outros pesquisam no setor da sociologia, considerando com olhar cristão as questões e conclusões da mesma.

A hospedagem de visitantes e peregrinos solicita outrossim o trabalho dos irmãos. Já que este setor é, por vezes, absorvente, bom número de amigos da comunidade colabora com os monges na recepção dos que batem à porta do mosteiro; estes são convidados à oração comunitária e, se possível, à participação da mesa fraterna. Ainda para receber os peregrinos em Taizé, há geralmente sacerdotes católicos e ortodoxos.

Dada a irradiação que o mosteiro vem tendo, foi necessário que os irmãos construíssem novas e novas dependências em torno do núcleo central. Não raro a mão-de-obra tem sido gratuita; alguns irmãos tomam parte da mesma.

A finalidade ecumênica do mosteiro faz também que os monges se desloquem freqüentemente, não raro em pequenos grupos de dois ou três e por um tempo mais ou menos longo Vão a países da Europa (Holanda, Alemanha, Escandinávia e Inglaterra), como também os Estados Unidos e à América Latina. Fundam pequenas Fraternidades em tais regiões, no intuito de propiciar reconciliação e renovação de vida entre os homens. No Brasil, os irmãos de Taize constituíram uma pequena Fraternidade junto ao mosteiro beneditino de Olinda (PE), mantendo boas relações com os monges de São bento e a população local. Passaram posteriormente para Vitória (ES), onde continuam até hoje, sem intenções proselitistas.

Não poderíamos terminar estas apreciações sem referir algo de mais explícito a respeito do movimento de jovens em Taizé.

3. Taizé e os jovens

3.1. O afluxo

A mensagem de reconciliação e otimismo proclamada pelos monges de Taizé tem encontrado eco particularmente significativo entre os jovens das diversas partes do mundo. Desde 1965 registra-se um afluxo crescente da juventude ao mosteiro de Taizé, principalmente por ocasião das férias de verão e de Páscoa. Em 1974, 19.000 jovens se encontravam em Taizé por ocasião da Páscoa.

Os observadores têm procurado indicar as causas precisas de tal afluxo: por que vão os jovens a Taizé com tanto interesse ?

Há quem responda que eles assim procedem porque gostam de viajar... e viajar como aventureiros. Poder-se-iam lembrar as aglomerações de jovens em Woodstock (ilha de Wight). Tal tendência a viajar exprimiria o desejo que os jovens têm, de fugir do mundo dos adultos ou da sociedade de consumo; seria, em outros termos, uma expressão de contestação. Ora inegavelmente Taizé é uma espécie de desafio ou contestação à sociedade de consumo. Lá não existe luxo; os visitantes não raro dormem sobre palha e comem precariamente.

Pode-se crer que essa mentalidade dos jovens explique, até certo ponto, o afluxo dos mesmos a Taizé. É o que se deduz, por exemplo, das palavras de Annick, peregrino em Taizé:

"A primeira vez que alguém vai a Taizé, creio que seja por curiosidade. Amigos, vizinhos voltam de lá entusiasmados, animados por nova força de vida e, não obstante, procuram não divulgar o que lá acontece".

Parece, pois, que a curiosidade e o desejo de estar na moda (de receber a cruz e a pedra azul de Taizé) explicam a primeira visita de muita gente ao mosteiro. Mas o fato de lá voltarem repetidamente já requer outra explicação. Esta parece consistir em algumas notas características de Taizé, que os jovens vão descobrindo aos poucos:

- a partilha. O ambiente de Taizé é estritamente comunitário, mesmo para os visitantes. Cada qual destes é incorporado a um grupo, onde há intercâmbio de idéias e valores humanos e cristãos; ora a descoberta desta realidade atrai;

- a oração. O ambiente de Taizé é fortemente marcado pelo espírito e a prática da oração. Os Ofícios litúrgicos convidam regularmente a esta; além disto, a calma e a beleza do lugar, o silêncio de certos recantos têm o mesmo efeito. É o que atesta Virgínia, visitante à qual muitos companheiros fariam eco: "Aqui encontrei de novo o sentido da oração e da contemplação".

Um jovem belga, movido primeiramente pela curiosidade, assim se exprimiu: "Havia sete anos que eu não entrava numa Igreja. Que silêncio ! Fiquei surpreso por não ver cadeiras. Quase tive vontade de puxar um cigarro... e rezar";

- engajamento ou compromisso. Em Taizé os jovens se conscientizam da missão que lhes cabe nesta fase da história e dispõem-se a agir.

Em conclusão, pode-se dizer que é a descoberta destes valores que, em última análise, prende os jovens a Taizé, de modo a explicar a crescente procura do mosteiro por parte da juventude.

3.2. O Concílio dos jovens

Vendo o interesse da mocidade por Taizé, o Prior do mosteiro, Ir. Roger Schutz, organizou em setembro de 1966 o primeiro Encontro Internacional dos mesmos. Nos anos seguintes, outros Encontros se realizaram, tendo sempre um tema próprio: "Viver", "Crer", "Um desafio: esperar". Diante do êxito obtido e por influência de Margarida Moyano, Secretária-Geral da Juventude Católica Latino-Americana, o Prior Ir. Roger Schutz resolveu lançar a idéia de um "Concílio de Jovens". Na Páscoa de 1970, uma equipe internacional de jovens anunciou a "Alegre Notícia" ... Todavia, antes da concretização da idéia, foi necessário proceder a uma série de preparativos: em diversas partes do mundo criaram-se grupos ou células destinados a refletir sobre a maneira de levar a termo a idéia com o máximo de êxito.

Finalmente na Páscoa de 1972 foi anunciada a data de realização do Concílio: agosto-setembro de 1974.

Com efeito, de 30 de agosto a 1º de setembro de 1974 uma multidão de 30.000 a 35.000 jovens, provenientes de 120 países, participou do grande Encontro. Este, porém, seria (e foi) apenas a primeira sessão do Concílio, que se protrairá por diversas sessões no decorrer de alguns anos, tomando sedes sucessivas nos vários continentes do globo. Os congressistas acamparam em tendas no vale próximo à colina de Taizé; nesse vale e na colina foram constituídos cinco centros de distribuição de refeições; vendiam-se também, em diversos lugares, alimentos, bebidas e utilidades a baixo preço. Os participantes do Congresso pagaram a sua diária, dentro dos moldes do seu possível; em geral, o Congresso e os congressistas procuraram autofinanciar-se, renunciando a doações. Muitos jovens fizeram horas "extra" de trabalho a fim de poder ganhar a sua subsistência no Congresso.

Os debates do certame levaram fortemente em considerações a situação angustiada de numerosos grupos e populações do globo; os representantes do terceiro Mundo relataram as condições de vida dos respectivos países, despertando assim os demais congressistas para o desafio da época aos cristãos e aos homens de boa vontade. O S. Padre Paulo VI, o Patriarca Dimitrios de Constantinopla (Istambul) e o Pastor Philip Potter, do Conselho Mundial das Igrejas, enviaram sua mensagem aos jovens reunidos, comunicando-lhes a orientação da fé neste momento, em que as posições extremistas exercem forte sedução.

Em conclusão, não se pode deixar de registrar a ação do Espírito Santo na comunidade de Taizé. Esta é realmente um sinal de reconciliação tanto para os cristãos como para todos os homens que desejem viver mais freqüentemente esta fase da história.


¹ Aliás, não é este o único testemunho de irmãos protestantes contemporâneos em favor dos votos religiosos. Sim; uma diaconisa protestante na África declarou:
"Quando uma jovem toma consciência desse convite de Deus a uma consagração total, deve fazer frente a três exigências muito precisas: a castidade, a pobreza e a obediência" (citada por Esnault, "Luther et lê monachisme acutel" p. 11, n. 1).
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Através do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, o Papa Bento XVI relembrou os cinco anos (em 2010) do assassinato do Irmão suíço Roger Schultz, fundador da Comunidade de Taizé, na França, enviando uma mensagem à entidade ecumênica.

“Agora que entrou na alegria eterna, o querido Irmão Roger continua a falar-nos. Que o seu testemunho de um ecumenismo de santidade nos inspire no nosso caminho para a unidade e que a vossa Comunidade continue a viver e a fazer brilhar o seu carisma, especialmente junto das gerações mais jovens” - escreve o Pontífice na mensagem publicada no site da Comunidade.

“Incansável testemunha do Evangelho de paz e reconciliação, Irmão Roger foi um pioneiro no difícil caminho em direção à unidade entre os discípulos de Cristo” – prossegue Bento XVI, manifestando sua “proximidade espiritual e a sua união nas orações com a comunidade e com todos aqueles que participam das celebrações que recordam o irmão Roger”.

“Há 70 anos, ele deu início a uma comunidade que ainda vê chegar milhares de jovens provenientes do mundo todo, que buscam dar um sentido às suas próprias vidas, acolhendo-os na oração e permitindo que eles tenham uma relação pessoal com Deus”.

Roger Schütz-Marsauche foi morto em 16 de agosto de 2005, durante a oração noturna pública, por uma mulher de 35 anos, de origem romena, aparentemente desequilibrada, que se aproximou dele com uma faca. Ele tinha 90 anos. Cerca de 12.000 pessoas participaram do enterro do Irmão no dia 23 de agosto.

O Irmão Alois, sucessor do irmão Roger, recebeu nestes dias mensagens do Secretário Geral do Conselho Ecumênico das Igrejas, Olav Fykse-Tveit, do Secretário Geral da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (CMIR), Setri Nyomi, do Secretário Geral da Federação Luterana Mundial, Ishmael Noko, do Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, do Patriarca Kirill, de Moscou, do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla.

Os cinco anos da morte do irmão Roger serão lembrados no próximo dia 14 de agosto, quando a Comunidade celebra também o septuagenário de fundação.

Cidade do Vaticano, 11 ago (RV)

Fonte:Radio Vaticana

Site da Comunidade de Taizé

sábado, 16 de abril de 2011

S.S. Bento XVI comemora 84 anos

 Ad multus annos!


VATICANO, 16 Abr. 11 (ACI) .- O Papa Bento XVI celebra hoje, dia 16 de abril seu aniversário número 84 e embora não haja nenhuma atividade pública oficial programada no Vaticano, as mostras de carinho chegam há vários dias à Santa Sé.

Um dos meios mais usados é o correio eletrônico benedict.xvi@vatican.va difundido anos atrás pela Santa Sé como conta oficial para enviar mensagens ao Pontífice.

O Santo Padre cumpriu hoje uma jornada de trabalho na qual recebeu entre outras personalidades, a nova embaixatriz da Espanha ante a Santa Sé, María Jesús Figa, que lhe apresentou suas cartas credenciais.

Amanhã, o Papa presidirá na Praça de São Pedro do Vaticano a procissão das palmas e ramos de oliveira e presidirá a Missa solene das Palmas e da Paixão do Senhor pelo Domingo de Ramos.

Este novo ano de vida estará marcado por quatro viagens fora da Itália que se unirão às outras 18 feitas desde que iniciou seu Pontificado e cerimônias históricas como a beatificação de seu antecessor João Paulo II prevista para o dia 1º de maio.

Em junho chegará à Croácia, em agosto viajará à Espanha para presidir pela terceira vez a Jornada Mundial da Juventude, que este ano será celebrada em Madri. Além disto, em setembro cumprirá sua terceira viagem à Alemanha, seu país natal, e em novembro chegará ao Benin, em sua segunda viagem à África.

Breve biografia

Joseph Aloysius Ratzinger nasceu em Marktl am Inn (Baviera, Alemanha), no dia 16 de abril de 1927. Seu pai, comissário de uma delegacia, provinha de uma antiga família de agricultores da Baixa Baviera. Passou a adolescência em Traunstein e foi chamado nos últimos meses do segundo conflito mundial nos serviços auxiliares anti-aéreos.

Desde 1946 a 1951, ano em que foi ordenado sacerdote (29 de junho) e iniciava sua atividade de professor, estudou filosofia e teologia na universidade de Munique e na escola superior de Filosofia e Teologia de Freising.

No dia 24 de março de 1977, Paulo VI o nomeou arcebispo de Munique e Freising. Em 28 de maio deste mesmo ano recebia a consagração episcopal. Foi o primeiro sacerdote diocesano que assumiu o governo pastoral da grande diocese bávara depois de 80 anos.

Foi criado cardeal pelo Papa Paulo VI em 1977 e em 25 de novembro de 1981 foi nomeado por João Paulo II prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Pontifícia Comissão Teológica Internacional.

Foi eleito Pontífice no dia 19 de abril do ano 2005.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Quem fundou a sua Igreja?

Por Carlos Martins Nabeto

Fonte: Agnus Dei

"Tu és Pedro, e sob esta pedra edificareis a minha Igreja."


INTRODUÇÃO

Este artigo pode, a princípio, parecer anti-ecumênico, mas não é. Muito pelo contrário, visa esclarecer fatos históricos. Pessoalmente, torço para o êxito do ecumenismo, que tem uma árdua tarefa na busca da aproximação, diálogo e consenso entre as várias denominações cristãs. Contudo, sou obrigado a registrar que, em virtude da imperfeição do ser humano, o ecumenismo caminha a passos lentos… muito lentos mesmo! Na verdade, a discórdia reinante entre os cristãos é fruto mais de interesses pessoais e políticos do que religiosos. É claro que existem diferenças de pontos doutrinais, criados a partir da necessidade de separação e identificação, mas será que existe vontade de discuti-los fraternalmente, a ponto, até, de reconhecê-los como errados?

Volta e meia a imprensa noticia que milhares e milhares de católicos estão indo seguir outras religiões. Vemos, assim, que o católico costuma a ser pacífico, bom ouvinte, o que, aliás, é uma boa virtude ecumênica. Por outro lado, sabemos que muitos católicos assim se declaram porque foram batizados quando crianças, não tendo, após isso, uma verdadeira vida cristã: nunca foram à Igreja (exceto para “pagar” promessas ou participar de missas de sétimo dia), nunca tiveram interesse de participar dos grupos comunitários e nunca se aprofundaram no estudo bíblico e doutrinário da Igreja (no máximo, fizeram a primeira – e única! – comunhão). Infelizmente, vemos atitudes pouco ecumênicas por parte da maioria dos dirigentes de outras igrejas que, aproveitando o fato do pouco conhecimento religioso de boa parte dos católicos, coverte-os às suas respectivas religiões usando, para isso, de artimanhas verdadeiramente anti-ecumênicas. Para discutir esse fenômeno, existem, hoje, duas correntes de pensamento dentro da própria Igreja católica: a primeira acha ótimo esse “êxodo”, já que ocorre uma purificação interna dentro da própria Igreja, uma vez que, como está comprovado, só deixam de ser católicos aqueles que pouco interesse têm pela Igreja. A segunda, embora reconhecendo que essa “purificação” é positiva e que contribui para o aumento da qualidade dos fiéis católicos, afirma que não é justo permitir o afastamento do “joio” já que estes foram, na maioria das vezes, conquistados de forma ilícita, isto é, por desconhecerem a sã doutrina da Igreja, mudaram de fé graças a argumentos duvidosos (apresentados por fiéis de outras igrejas), para os quais não tinham uma explicação satisfatória… De uma forma, como de outra, a própria Igreja católica reconhece que é necessária uma nova evangelização, buscando aprofundar as raízes de todos os fiéis católicos bem como de todos os homens de boa vontade.

TUDO É HISTÓRIA

Ao contrário de todas as demais religiões, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são religiões históricas, não foram criadas a partir de mitos! Logo, todas as ações realizadas pelos fiéis dessas três grandes religiões ficaram registradas no tempo! São fatos, não lendas; é história, não estória! Não vamos falar sobre os judeus, pois sabemos que eles não aceitaram Jesus como o verdadeiro Messias porque sua visão de Messias, na época de Jesus, era estritamente política: o enviado de Deus que libertaria o povo da dominação romana (aliás, a destruição de Jerusalém em 135 dC pelos romanos foi motivada por essa falsa visão: três anos antes, Bar-Khokba fôra proclamado pelas autoridades religiosas como o Messias libertador). Quanto aos islâmicos, cuja fé baseia-se em Maomé, bem sabemos pela História que trata-se de uma religião com grandes influências do judaísmo e cristianismo.

Vamos, portanto, nos concentrar na fé cristã e ver o que é histórico, o que é verdadeiro, já que, na esmagadora maioria das vezes, os conflitos e divisões são gerados pelos próprios cristãos.

A IGREJA CATÓLICA

Jesus manifestou o interesse de fundar a Igreja (Mt 16,18), Igreja esta que teria autoridade (Mt 18,17), cujo sinal de unidade seria a pessoa de Pedro (Mt 16,18-19; Jo 21,15-17; etc). A Igreja foi oficialmente fundada após a ressurreição de Jesus, no domingo de Pentecostes, com o derramamento do Espírito Santo (At 2). A Igreja cresceu em número, primeiro em Jerusalém, e foi se espalhando pelo mundo graças à pregação e cuidado dos apóstolos. É de conhecimento geral que, naquela época, Roma era a senhora do mundo, o mais vasto império que a humanidade já conheceu. Foram os próprios apóstolos que viram a necessidade do deslocamento do Cristianismo para o centro do império romano a fim de facilitar a pregação do Evangelho. É fato histórico que Pedro e Paulo foram perseguidos e martirizados em Roma. Clemente Romano, ainda no séc. I, nos testemunha esses martírios. Irineu de Lião apresenta, no séc. II, a lista dos sucessores de Pedro, até aquela data. A arqueologia, através de escavações, confirmou a morte de Pedro e Paulo em Roma ao encontrar seus respectivos túmulos. Ao estudarmos a doutrina da Igreja católica, percebemos que ela não se afastou um milímetro sequer desde a sua fundação, ou seja, a Igreja católica atual é a mesma de 2000 anos atrás.

A PRIMEIRA DIVISÃO

A primeira divisão dentro do Cristianismo ocorreu em 1054 dC (aproximadamente mil anos após a fundação da Igreja). É o que se chama de Cisma Oriental. Antes disso, grandes polêmicas tinham surgido dentro do seio do Cristianismo mas, mesmo assim, sempre se chegava a um consenso geral através da realização de grandes Concílios Ecumênicos, que reuniam bispos de todo o mundo até então conhecido. Aqueles que não se adequavam às decisões eram afastados da Igreja, criando – como hoje em dia – comunidades heréticas que o próprio tempo tratou de exterminá-las. Mas o Cisma Oriental foi a primeira divisão que realmente abalou o mundo cristão. Doutrinariamente, os orientais, baseados em Constantinopla, acusaram a Igreja do ocidente de ter acrescentado o termo filioque ao credo niceno-constantinopolitano, resultando na procedência do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho e não apenas do Pai, como originalmente registrava tal credo, o que dava a impressão que o Espírito Santo passou a “existir” após o Pai e o Filho. Muito embora a Igreja católica tenha demonstrado e comprovado que tal acréscimo nada modifica na fórmula original, nem impõe uma ordem de procedência já que trata-se do Deus único, a Igreja Ortodoxa jamais aceitou voltar à plena comunhão com a Igreja de Roma, o que bem demonstra que a divisão não ocorreu por motivo simplesmente doutrinário.

Mas então qual seria o verdadeiro motivo da separação? Política! Desde o séc. VII, Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, desejava ter os mesmos direitos da sé de Roma, tendo conseguido obter, no máximo, o reconhecimento do privilégio de segunda, logo depois de Roma. Assim, o argumento do “acréscimo ilícito” do filioque foi usado apenas para garantir a separação na ordem política! Isso é História.

AS DEMAIS DIVISÕES

Após a separação da Igreja Ortodoxa, foram necessários mais 500 anos, aproximadamente, para que nova divisão viesse abalar a Igreja do Ocidente. Também é fato histórico que na Igreja medieval ocorriam vários abusos, a grande maioria ocasionados pelo fato da ligação íntima entre Igreja e Estado; era o Estado que nomeava os bispos, sendo estes pouco preparados a nível religioso. Então era comum encontrarmos bispos que compravam determinada sede episcopal, que eram casados irregularmente, que eram impiedosos por falta de vocação religiosa, etc… Era necessária uma Reforma dentro da Igreja! Vários homens lutaram por essas reformas, cada qual a seu jeito. Francisco de Assis é um desses exemplos: lutou por reformas e conseguiu! Não precisou dividir a Igreja, pois reconhecia sua importâcia e autoridade. Mesmo assim, a Igreja ainda não estava totalmente reformada. Infelizmente, homens como Lutero e Calvino, ao invés de se inspirarem no grande exemplo de São Francisco, acharam mais fácil romper com a Igreja, fundando novas religiões… foi a chamada Reforma Protestante. Lendo a história de maneira completamente imparcial, vemos que, mais uma vez, a política se intrometia no campo religioso. Lutero, para impor suas doutrinas, aliou-se aos príncipes alemães descontentes com as boas relações entre o Imperador e o Papa. Calvino fez de Genebra um Estado cuja política era guiada por preceitos religiosos radicais, com visível orientação antipapal e anticatólica. Ao contrário de Lutero e Calvino, o rei Henrique VIII da Inglaterra estava preocupado em conseguir um descendente (filho) do sexo masculino para ser seu sucessor no trono; como Catarina de Aragão, sua esposa, não conseguia dar-lhe esse filho tão esperado e o Papa não consentisse o divórcio, obrigou ao clero inglês a reconhecê-lo como chefe supremo da igreja na Inglaterra. Observemos, portanto, como os argumentos religiosos são usados por todos, desde o princípio, como justificativa para implantação de idéias meramente políticas.

Lutero havia afirmado que quem dirige o crente é o Espírito Santo, de forma que este não necessita da autoridade de Igreja para ajudá-lo a interpretar a Bíblia, única fonte de fé que deve ser considerada pelo cristão. Esse mesmo ponto de vista foi adotado por Calvino e por todo o mundo protestante. Mesmo sendo oposta à própria Bíblia (2Pd 3,15-16), a livre interpretação ocasionou a fragmentação do Cristianismo em mais de 20 mil ramos, o que é um absurdo, já que cada ramo se julga a verdadeira Igreja de Cristo, tendo como único ponto comum o anticatolicismo. Mas, não reconhecendo a autoridade de Igreja, mais uma vez se voltam contra a Bíblia, pois esta afirma que o fundamento e coluna da verdade é a Igreja (cf. 1Tm 3,15), logo, apesar de possuirem alguns pontos verdadeiros (que são iguais aos da Igreja Católica!!!), não são a verdadeira Igreja de Cristo.
Vejamos a seguinte lista, organizada em ordem cronológica e incompleta, já que seria impossível listar as 20 mil igrejas cristãs hoje existentes:
AnoDenominaçãoOrigemFundador
~33Fundação da Igreja CatólicaPalestinaJesus
~55Igreja Católica se fixa em Roma, com Pedro e Paulo
1054Igreja OrtodoxaConstantinoplaMiguel Cerulário
1521Igreja LuteranaAlemanhaMartinho Lutero
1523AnabatistasAlemanhaZwickau
1523Batistas MenonitasHolandaMenno Simons
1531Igreja AnglicanaInglaterraHenrique VIII
1536Igreja PresbiterianaSuiçaJoão Calvino
1592Igreja CongregacionalistaInglaterraJohn Greenwood e outros
1612Igreja Batista Arminiana ou GeralInglaterraJohn Smith
~1630Sociedade dos Amigos (Quakers)InglaterraGeorge Fox
1641Igreja Batista Regular ou ParticularInglaterraRichard Blount
1739Igreja MetodistaInglaterraJohn Wesley
1816Igreja AdventistaEUAWillian Miller
1830MórmonsEUAJoseph Smith
1865Exército da SalvaçãoInglaterraWillian Booth
1878Testemunhas de JeováEUACharles T.Russel
1901Igreja PentecostalEUACharles Parham
1903Igreja Presbiteriana IndependenteBrasilOthoniel C. Mota
1909Congregação Cristã no BrasilBrasilLuís Francescon
1910Igreja Assembléia de DeusEUA/BrasilD.Berg/G.Vingren
1918Igreja do Evangelho QuadrangularEUAAimée McPherson
1945Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB)BrasilCarlos D.Costa
1955Cruzada o Brasil para CristoBrasilManoel de Mello
1962Igreja Deus é AmorBrasilDavid Miranda
1977Igreja Universal do Reino de DeusBrasilEdir Macedo
Outros Ramos:
  • Adventistas: Adventistas da Era Vindoura, Adventistas do Sétimo Dia, Adventistas Evangélicos, Cristãos Adventistas, Igreja de Deus, União da Vida e do Advento, etc.
  • Batistas: Batistas Abertos, Batistas das Duas Sementes no Espírito, Batistas das Novas Luzes, Batistas das Velhas Luzes, Batistas do Livre Arbítrio, Batistas do Sétimo Dia, Batistas dos Seis Princípios, Batistas Fechados, Batistas Primitivos, Batistas Reformados, Velhos Batistas, etc.
  • Pentecostais:Cruzada da Nova Vida, Cruzada Nacional de Evangelização, Igreja Cristo Pentecostal da Bíblia, Igreja da Restauração, Igreja Jesus Nazareno, Reavivamento Bíblico, Tabernáculo Evangélico de Jesus (Casa da Bênção), etc.
Como cada uma dessas igrejas defende sua própria doutrina como verdadeira, apesar de se autonomearem como cristãos, excluem-se mutuamente. Contudo, a única Igreja cristã que existe desde a época de Cristo é a Igreja católica. E observando-se que sua doutrina permaneceu imutável nestes 2000 anos, temos que ela é a Igreja de Cristo, apesar das demais possuírem elementos verdadeiros, vestígios de sua ligação comum com a Igreja católica. Uma brincadeira de criança ilustra muito bem nosso ponto de vista: a brincadeira do“quem conta um conto, aumenta um ponto”. Uma pessoa transmite uma mensagem para uma segunda pessoa; entra, então, uma terceira pessoa, que recebe a informação da segunda pessoa, e assim, sucessivamente. Não são necessárias muitas pessoas, pois já na quarta ou quinta pessoa, a informação está completamente distorcida da informação original. O mesmo ocorre no campo religioso: como pode, igrejas sem nenhuma ligação com Jesus proclamar-se detentoras da verdade? E como podem essas igrejas atribuir suas mais diversas doutrinas ao mesmo Espírito Santo, sendo estas completamente contraditórias entre si? Não seria uma blasfêmia dizer que o Espírito Santo está ocasionando divisões entre os cristãos se Jesus Cristo afirmou que haveria um só rebanho e um só pastor? (Jo 10,16)

Além da pergunta: “quem fundou a sua igreja?”, outra pergunta interessante a ser feita aos cristãos não católicos é: “qual seria a sua religião se você nascesse há mil anos atrás?”. Nessa época, havia unidade total entre os cristãos e a resposta seria apenas uma: católica. Ora, se não houve mudanças na doutrina desde a fundação da Igreja, é ilógico e contraditório aceitar atualmente doutrinas que não se alinham com as da Igreja católica!!! Pode-se aceitar ritos e disciplinas diferentes, mas não doutrinas!

Quem dá sustentação e vida à árvore é sua raiz! Uma árvore sem raiz não sobrevive nem se mantém segura de pé! E o que temos na raiz desta grande árvore que é o Cristianismo? Na base (raiz) está a Igreja católica (é fato histórico; observe mais uma vez a tabela acima)! Sua raiz bebe diretamente Daquele que dá e é a água viva (cf. Jo 4,10), Jesus Cristo, o Filho de Deus. E é por isso que ela, ainda nos dias de hoje, tem se demonstrado forte e vigorosa (apesar da sua idade), e assim será até a consumação dos séculos (cf. Mt 28,20b).


NABETO, Carlos Martins. Apostolado Veritatis Splendor: Quem fundou a sua Igreja?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4477. Desde 6/8/2007.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Liturgia e o “protestantismo” tradicionalista

Andrea Tornielli
Vaticanista do Il Giornale,
Trad. e Adapt. Frei Cleiton Robson, OFMConv.



"Prefiro errar com a Igreja a acertar sozinho." (Santo Agostinho de Hipona)

Caros amigos, ao renovar meus votos de um Feliz Natal, digo que no Giornale de ontem (24/12/10), publiquei uma extensa entrevista com o Prefeito da Congregação para o Culto Divino, o Cardeal Antonio Cañizares Llovera. O Cardeal - depois de ter denunciado a pressa com que foi feita a reforma pós-conciliar - explica o que a Congregação está fazendo para dar vida a um novo movimento litúrgico que faça recuperar a sacralidade ao rito de acordo com as instruções da Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II. Cañizares antecipou algumas das iniciativas do dicastério que resguardam a formação, a catequese, a pregação, a arte e a música sacra.

Li com interesse alguns comentários em outros blogs que já tomaram a entrevista de ontem (refiro-me a paparatzinger blogs e ao blog messainlatino) e gostaria de fazer aqui algumas observações sobre a liturgia, mas também, em geral, à atitude contra o Concílio Vaticano II, também no debate suscitado pelo livro O Concílio Vaticano II: Uma história jamais escrita (Lindau), publicada recentemente pelo historiador Roberto de Mattei.

Para começar eu digo que não gosto de usar o adjetivo “tradicionalista”, assim como não gosto daqueles que seguem o rito antigo (na minha opinião, equivocadamente, chamado de “a missa de sempre”, como se eu, que sigo o rito pós-conciliar, fosse a uma “missa de nunca”) seja definido como “modernista”.

Espanta-me, antes de tudo que, frente aos gestos de Bento XVI, voltados a recuperar a sacralidade do rito católico, houve grandes concessões importantes, dentre elas o Motu Proprio Summorum Pontificum que, ao invés de favorecer a reconciliação defendida pelo Papa, segundo aquela hermenêutica “da reforma, da renovação na continuidade” (não vamos esquecer: não só “na continuidade”, mas também “da reforma”), vê-se, às vezes, que são atitudes consolidadas pela rigidez. Caros amigos, eu não posso suportar a banalização da liturgia, a criatividade que reduz o rito à obra de nossas mãos; a ausência do silêncio; a música que não tem nada a ver com a Missa, etc. etc.

Mas devo acrescentar: temos honestamente que admitir que esta, na verdade, não é a regra em todos os lugares. É certo que, em relação há alguns anos ou décadas, os abusos diminuíram drasticamente; e existem diferenças consideráveis de país para país. É por isso que estou surpreso, pois, no fundo, as palavras do Cardeal Cañizares, intérprete sincero e verdadeiro de Bento XVI, são consideradas como expressões de fraqueza, pelo fato de que ele - a pedido do Papa - está trabalhando para suscitar um movimento litúrgico novo e forte.

Esclareçamos tudo: muitos (ou alguns, ou poucos, julguem vocês mesmos) tradicionalistas não gostam da hermenêutica da continuidade de Bento XVI, porque, no fundo, acreditam que o Concílio deveria ter sido abolido. Eles acreditam que a reforma litúrgica deveria ser abolida, como um todo. Eles chegam a dizer que Roma deve reconciliar-se com a Tradição. Mas qual Tradição? Aquela fixada por eles. A Tradição está sempre vivendo, e assim como o cristianismo, é um evento que constitutivamente entra na história - que Deus se fez carne, morreu na cruz por nossos pecados e ressuscita, abrindo as portas do Paraíso e prometendo um cêntuplo já aqui. A Igreja se atualiza, vive os desafios do tempo. Procura apresentar, de modo adequado, as verdades de sempre.

Temo que certo tradicionalismo possa deslizar para o seu exato oposto, o protestantismo. Ou melhor, o galicanismo. Quem dá o direito a este ou aquele tradicionalista de dizer: esta é a Tradição, Roma está errando? Quem dá a autoridade para decidir? O tradicionalismo não é o Magistério. Quem dá o direito de, às vezes, lançar ao mar, com escárnio e desprezo, o Concílio Vaticano II? Talvez o apelo à autoridade do arcebispo Marcel Lefebvre (que a sua alma descanse em paz), agora apresentado em uma hagiografia, como um santo da Igreja?!

Quem permite a muitos tradicionalistas – baseando-se no fato de que o Vaticano II não proclamou dogmas novos – de declarar o Concílio como “pastoral” e, portanto, irrelevante e não segui-lo? Os 95% do Magistério não é dogmático, mas ordinário. Porém, o católico é obrigado a segui-lo. E então - digo isto sem intenção polêmica - como se pode realmente acreditar que o Papa legitimamente eleito, a quem Jesus assegurou o poder das Chaves e da assistência especial do Espírito Santo, com todos os bispos que votaram quase por unanimidade os documentos do Vaticano II (Lefebvre incluído), juntos em Concílio, possam ter errado?

Estar com Pedro e pelos bispos em comunhão com ele significa ser católico. Caso contrário, eu poderia dizer que considero Pio X um modernista (quantas reformas ele fez, e se eu não gosto nem as considero inadequadas aos tempos e que não estão em consonância com a doutrina litúrgica de Gregório XVI e Leão Magno?), e que quero me firmar no Vaticano I e em Pio IX ... Outro pode dizer que não aceita o Vaticano I e o dogma da infalibilidade papal (que é um inegável desenvolvimento da Tradição, e que não é aceito pelos ortodoxos). Outro pode dizer que o único ponto firme é o Concílio de Trento, enquanto outro ainda pode tentar provar que o rito moçárabe celebrado em Toledo não é católico...

Este é o “protestantismo” tradicionalista, porque se as posições de Dom Lefebvre, deste ou daquele teólogo, algumas teorias do leigo brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira (que são objetos, dentre os muitos que se voltam para o seu pensamento, com diversas interpretações), ou as opiniões de qualquer respeitabilíssimo bispo ultra-conservador sejam enfatizadas e terminem por se tornarem o único critério para julgar a Sé Apostólica e por afirmar, em substância, as suas próprias opiniões sobre a Tradição e a “Missa de sempre”, na minha humilde opinião, há algo errado. É, na verdade, uma oposição, mas perfeitamente semelhante à de um certo progressismo, que apresenta o Concílio como um elemento de ruptura total com o passado. Isto é uma leitura antitética à de Bento XVI.

E então, permitam-me dizer que não é possível lançar apelos contínuos ao Papa para explicar, para esclarecer o Concílio; e depois fingir que não se leu e que não foi possível ver quando ele ou a Congregação para a Doutrina da Fé, ou outros departamentos da Cúria Romana o fizeram, dando a hermenêutica adequada com relação a certas distorções devidas não ao Concílio e seus textos, mas às opiniões do pós-Concílio. Isso aconteceu até com o discurso de Bento XVI à Cúria Romana em 2005 (onde o Papa admiravelmente abordou a questão da liberdade de religião, também se reflete na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, em Janeiro de 2011), com a Dominus Iesus sobre a singularidade da salvação de Cristo, com o esclarecimento sobre o “subsiste in”.

A Igreja é maior do que as nossas opiniões, o Magistério do Papa deve ser seguido mesmo quando o Pontífice não fala “ex cathedra”, o que acontece na grande maioria das vezes. O católico sabe que a Igreja Católica não é obra de nossas mãos, sabemos que fomos chamados por Alguém. Ele sabe que Jesus, a verdadeira rocha sobre a qual a Igreja estabeleceu a autoridade do seu Vigário – um pobre vigário de Cristo, como dito em palavras inesquecível João Paulo I – é tão frágil como todos, mas especialmente assistido pelo Espírito Santo.

Se olhássemos assim para o Papa, talvez poderíamos usar outras palavras para descrever o que ele faz e o que nos pede. Talvez estaríamos prontos para debatermos, porque o que nos poupa não é a nossa ideia de Tradição, mas o estarmos unidos a Cristo na sua Igreja, sob a guia do Seu Vigário e dos bispos em comunhão com ele. Para isso, dizia o Cardeal Giuseppe Siri, “os documentos do Concílio devem ser lidos de joelhos”.

Permitam-me uma palavra final sobre Dom Marcel Lefebvre, hoje apresentado por alguns como um santo, um herói, um combatente do bom combate pela verdade contra o modernismo dos Pontífices... Não o julgo e espero realmente que esteja no Céu, apesar da excomunhão. Mas um católico não pode apresentá-lo como um exemplo de santidade. Se Lefebvre era um santo, em 1988, tinha dito ao Senhor:


Dom Marcel Lefebvre

“Meu Deus, eu fiz tudo que podia para salvar a autêntica Tradição que eu considero em perigo, e lutar por aquilo que acredito ser uma separação assustadora da verdadeira liturgia Católica. Agora estou diante de um dilema. Desobedecendo ao Papa para garantir a continuidade da Sociedade de São Pio X, consagrar novos bispos, ou aceitar o convite e deixar perder-se....”

Um santo como o Padre Pio, o santo de Pietrelcina, nunca teria desobedecido o Papa, nunca teria quebrado a unidade da Igreja. Ele disse a Deus:

Santo Pe. Pio de Pietrelcina
“Eu confio em Ti. Se Tu quiseres continuar com este trabalho, agora tu tens que ir em frente, porque eu tenho feito tudo que era humanamente possível, mas agora eu não posso desobedecer o Seu Vigário”.

Ao dizer Feliz Natal novamente, gostaria de acrescentar que não restam dúvidas (que não necessariamente serão), e que partilho da opinião de Cañizares sobre a reforma pós-conciliar, que, creio, deve ser escrita a palavra final para os abusos litúrgicos, bem como para o problema da ausência de autoridade do episcopado, uma das principais causas do fracasso para corrigir os abusos. Não estou, em suma, pintando uma realidade rósea, porque não o é.

Mas devo expressar aqui mais uma vez, a falta de caridade e, às vezes, até mesmo desprezo que eu li em algumas reações. Há um debate que revela a existência de uma guerra entre cristãos que se devoram uns aos outros. E vou dizer o porquê de ter apenas me prendido aos chamados “tradicionalistas” e não aos chamados “modernistas”, que são muito mais. Bem, vejam, diante do exemplo de Bento XVI, os gestos de reconciliação, que pôs em prática frente ao mundo tradicionalista, seria de se esperar que, a partir deste próprio mundo, viesse o primeiro e principal apoio para aquele movimento litúrgico que o Papa (e não singularmente Ratzinger ou o “Papa” entre aspas, como às vezes eu vejo isso definido nos delírios sedevacantistas) acredita ser essencial para a Igreja hoje.

“O Magistério da Igreja - disse o então arcebispo de Munique da Baviera, Joseph Ratzinger - defendeu a fé do povo simples, daqueles que não escrevem editoriais nos jornais, que não têm cátedras universitárias, que não publicam obras teológicas ou livros de sucesso, que não vão à TV. E na fé dos católicos simples sempre se soube que Ubi Petrus ibi Ecclesia.”