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sábado, 4 de outubro de 2014

O Marxismo da Bíblia Sagrada Edição Pastoral

E pensar que fui catequisada com essa edição... Ainda bem que Deus cuida das crianças e dos bêbados! hehe

Evite esta edição...

Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 342 Ano 1990 Pág. 514
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Em síntese: A Bíblia. Edição Pastoral, em tradução e notas de Ivo Storniolo e Euclides Balancin, não preenche a finalidade que se propõe. Inspirada por ideologia marxista deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental. O Vocabulário do fim do volume e as notas de rodapé dão as chaves de interpretação dos livros bíblicos; a própria tradução portuguesa, num ou noutro ponto, deturpa o sentido do texto sagrado. Em consequência, deve-se lamentar a difusão de tal obra nos ambientes eclesiásticos do Brasil. A Pastoral não significa incitamento à luta de classes e às divisões entre os homens.

As Edições Paulinas publicaram uma nova tradução da Bíblia dita astoral (BP), acompanhada de notas de rodapé e Vocabulário, que vêm suscitando perplexidade: há os que defendem tal edição, devida a Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin, como sendo o livro ideal (ver Jornal de Opinião, 1-7/7/90, p. 3). Mas há também os que a impugnam com argumentos sérios, mostrando graves falhas na inspiração básica e na confecção de tal tarefa. O assunto já foi abordado em PR 337/1990, pp. 285s. Voltamos ao problema, aduzindo novas observações, provenientes, em grande parte, de D. João Evangelista Martins Terra S. J., Bispo Auxiliar de Olinda-Recife, Membro da Equipe Teológica do CELAM e da Pontifícia Comissão Bíblica.

1. Três observações básicas

A tradução do texto bíblico da Edição Pastoral é aceitável com algumas ressalvas, que indicaremos à p. 523s deste artigo. Todavia, as notas de pé de página e o Vocabulário, encontrado às pp. 1616-23, pretendendo dar a chave de leitura e interpretação da Bíblia, são alheios à Tradição bíblica judeu-cristã e distorcem a mensagem sagrada para o setor da ideologia sócio-político-econômica. Sem o perceber, o leitor desprevenido vai absorvendo uma concepção filosófica não cristã sob a capa de Palavra de Deus. Isto se depreende facilmente desde que se dê um pouco de atenção ao Vocabulário dessa Edição.

1.1. O elenco do Vocabulário

Eis os principais verbetes que interessam aos estudos e ao linguajar bíblicos ou os principais vocábulos da mensagem bíblica tomada como tal: Aarão, Abel, Abraão, Ação de graças, Adão, Adoração, Adultério, Água, Alma, Anjo…

Bem diferentes são os verbetes do Léxico da Edição Pastoral dispostos segundo a ordem alfabética: Aliança, Alienação, Amor, Autoridade, Autossuficiência, Campo, Celebração, Cidade, Comércio, Compaixão, Comunidade, Conflito, Consciência, Conversão, Corrupção, Dinheiro, Direito, Discernimento, Dominação, Educação, Encarnação, Escravidão, Esperança, Exploração, Fé, Fraternidade, Gratidão, Herança, História, Idolatria, Injustiça, Integridade, Javé, Jesus, Julgamento, Justiça, Lei, Liberdade, Libertação, Liderança, Lucro, Memória,… Poder,… Produção, Projeto de Deus, Prosperidade,… Repressão,… Riqueza, Roubo, Tributo,… Violência… Estes vocábulos têm sua repercussão nas notas de rodapé, inspirando uma doutrina que já não é bíblica, mas preponderantemente marxista. Os próprios vocábulos tipicamente bíblicos que ocorrem no Léxico Pastoral são esvaziados de seu conteúdo próprio e característico para assumir significação ideológica. Assim, por exemplo:

Aliança: É o centro da Bíblia. Deus se alia com os pobres e oprimidos para construir uma sociedade e uma história voltada para a vida.

Ora é de notar que a Aliança de Deus com os homens não começa na época dos pobres e oprimidos, mas é universal ou destinada a todos desde o início; o segundo Adão, Jesus Cristo, Mediador da nova e definitiva Aliança, tem sua imagem ou seu esboço no primeiro Adão, pai de toda a humanidade, conforme Rm 5, 14; é com os primeiros pais que Deus trava a primeira Aliança, voltada para todos os homens, conforme Eclo 17, 10.

Amor: Mistério de Deus e do homem. Gera a relação de onde brotam a liberdade e a vida.

Celebração: Reunião do povo para comemorar os fatos centrais da vida e conservar a lembrança dos acontecimentos que marcaram a caminhada do povo.

Este conceito se aplica às celebrações cívicas, não, porém, às celebrações litúrgicas, nas quais se torna presente e atuante a Páscoa (morte e Ressurreição) de Jesus Cristo para fazer que os homens participem da obra da Redenção.

Esperança: Dinamismo que mantém o povo aberto para realizar plenamente o projeto de Deus. A esperança leva o povo busca transformações econômicas, políticas, sociais e religiosas.

Silencia-se o objeto supremo da esperança cristã, que é a vida eterna com a visão de Deus face a face.

Fraternidade: … Relação igualitária, onde todos como irmãos, podem participar das decisões que constroem a sociedade, e juntos usufruir dos bens que cada um produz.

Javé: É o misterioso Deus vivo que se manifesta respondendo ao clamor dos pobres e oprimidos para libertá-los dos exploradores e opressores. Ele é a fonte e a meta da liberdade e da vida. Por isto é aliado daqueles que buscam liberdade e vida, opondo-se a todas as pessoas e estruturas que produzem escravidão e morte.

Justiça: Realização do projeto de Deus. A justiça se concretiza na partilha e na fraternidade, dirigindo-se a sociedade para a solidariedade e a paz. Exige, para todos, a distribuição igualitária dos bens e a possibilidade de participar das decisões que regem a vida e a história do povo. Na Bíblia a justiça é eminentemente partidária, visando a defender a causa dos indefesos.

Como se vê, os conceitos bíblicos são todos analisados em chave sócio-política, que supõe a luta de classes na sociedade.

Duas noções merecem especial atenção.

1.2. A Revelação

Eis como a apresenta o Vocabulário:

Revelação: Manifestação de Deus através das realidades da vida e dos acontecimentos da história. Mostra o caminho que o povo deve seguir. Exige a atenção do homem, pois Deus está continuamente se revelando.

O conceito de Revelação que até hoje se prolonga, é ambíguo.

A fé católica distingue:

1) A Revelação de Deus normativa que manifesta o desígnio de Deus e os meios de salvação; encerra-se com Jesus Cristo, como diz a própria S. Escritura: Outrora muitas vezes e de muitos modos Deus falou aos pais pelos Profetas. No período final, em que estamos, falou-nos por meio do Filho (HB 1,1s).

2) Após Jesus Cristo, não há Revelação normativa; Deus proporciona os sinais dos tempos que reavivam no homem a consciência das verdades da fé, mas nada acrescenta de novo; estamos nos últimos tempos relativamente à doutrina (cf. 1Jo 2, 18).

O Papa Pio X condenou explicitamente a proposição modernista que dizia:

A Revelação que constitui o objeto da fé católica, não se encerrou com os Apóstolos (Denzinger-Schönmetzer, Enchiridion n.º 3421 [2021]).

O Concílio do Vaticano II reafirmou a clássica doutrina:

Jesus Cristo aperfeiçoa e completa a Revelação e a confirma com o testemunho divino de que Deus está conosco… A economia cristã, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e não há que esperar nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1TM 6,14 e TT 2,13) (Const. Dei Verbum n.º 4).

Vê-se, pois, que o Vocabulário da Bíblia Pastoral está longe do genuíno pensamento católico.

1.3. Projeto de Deus

Todo o Vocabulário e as notas de rodapé são perpassados pela noção de projeto de Deus, que dá o sentido aos demais verbetes. Ocorre mais de seiscentas vezes na Edição Pastoral, e até mesmo cinco ou seis vezes na mesma frase.

Ora projeto de Deus no contexto dessa obra não é uma noção teológica; não significa nem Providência nem desígnio de Deus, mas, sim, algo de tipicamente marxista, como se depreende a seguir:

Projeto de Deus: Aliando-se aos que são marginalizados pelo sistema injusto. Deus entra na história com novo caminho: promover a liberdade e a vida para todos. Todavia esse projeto está sempre em conflito com o projeto das nações que alicerçam sua riqueza e poder sobre a escravidão e a morte do povo. A luta para manter vivo dentro da história o projeto de Deus é o ponto de honra do povo de Deus.

2. A filosofia subjacente

Quem lê atentamente os verbetes do Vocabulário e as notas de rodapé da BP verifica que são devedores ao que se chama “a leitura materialista da Bíblia”. Esta não nega Deus e os valores espirituais, mas julga que são “superestrutura” ou derivados da “infra-estrutura” ou do jogo dos bens materiais no curso da história. Com outras palavras: supõe que os fatores decisivos da história sejam de ordem material (econômica) e política; a procura de posse dos bens materiais e do poder moveria todos os acontecimentos da história e condicionaria a crença em Deus, o culto religioso e a definição das normas morais. Adotando teses do marxismo, os fautores da leitura materialista da Bíblia contrapõem entre si campo e cidade, como, aliás, fazem I. Storniolo e E. Balancin:

“Campo: É o pólo fundamental da produção que sustenta a vida. É explorado pela cidade”.

“Cidade: Lugar da riqueza e do poder, que se concentram na mão de poucos, produzindo conflitos, principalmente com o campo” (p. 1616).

Partindo destes conceitos, os autores das notas da BP comentam o texto bíblico de maneira artificial e deformante:

Assim, por exemplo, o livro do Gênesis refere que Lote se separou de Abraão, ficando aquele com as cidades, e este com os campos. A nota a GN 13,1-18 diz então o seguinte: “Ló escolhe a região onde estão as cidades; assim ele entra no âmbito de uma estrutura que se sustenta graças à exploração e opressão do povo. Abraão, ao invés, fica aberto para uma história nova, fundada unicamente no projeto de Deus” (p. 26).

O comentário de Js 4,1-24 justifica a partilha da terra de Canaã pelos filhos de Israel nos seguintes termos:

“Antes da instalação de Israel, Canaã era um conjunto de cidades-Estado que oprimiam e empobreciam a população camponesa, através do sistema tributário. A conquista realizada por Israel derrotou esse sistema e implantou o sistema das doze tribos…, visando construir uma sociedade justa e igualitária… A nova geração deve ser educada a não voltar para trás, reproduzindo o sistema social injusto” (p. 244).

Vejam-se as notas paralelas:

“Só existe verdadeira paz quando se erradica completamente o sistema injusto que explora e oprime o povo” (p. 253).

“A conquista da terra… destroi um sistema classista injusto” (p. 255).

“As Cidades-Estado de Canaã justificavam a política opressora e exploradora dos seus reis” (p. 272).

“Sem poder mais explorar os camponeses e suas terras, tais cidades não conseguiram oferecer sacrifício… seus armazéns ficaram vazios por falta de trigo. Enquanto isso, os camponeses vitoriosos conseguiram livrar-se dos tributos e puderam gozar da fartura” (p. 274).

“Para uma volta ao projeto de Javé, é necessário romper… o sistema opressor das cidades” (p. 276).

A leitura materialista da Bíblia, julgando que as cidades se enriquecem mediante o tributo cobrado dos camponeses, afirma que os tempos religiosos vêm a ser centros econômicos e políticos nos quais se deposita o lucro resultante da exploração comercial e tributária. É por isto que na p. 1237 se lê em rodapé:

“No tempo de Jesus o templo (de Jerusalém) possui imensas riquezas e toda a cúpula governamental age a partir daí. Desse modo a casa de oração e ofertas a Deus se torna um imenso Banco e lugar de poder político. Em outras palavras, a religião se torna instrumento de exploração e opressão do povo”.

Desnecessário é dizer que esta descrição fantástica do Templo no tempo de Jesus carece de toda base histórica. Esse Templo, devido ao rei Herodes, ainda estava em fase de acabamento na época de Jesus; as obras de decoração demoravam por falta de recursos, como descreve pormenorizadamente o historiador judeu contemporâneo de Jesus, Flávio José (Antigüidades Judaicas 15, 380-425).

Pelos mesmos motivos é despropositado o comentário feito em rodapé a Mc 11,15 (expulsão dos vendilhões do Templo):

“Acusando e atacando o comércio existente dentro do Templo, Jesus retira as bases sobre as quais se apoiava toda uma sociedade. Com efeito, era com esse comércio que se sustentava grande parte da economia do país. O gesto de Jesus mexe não só com um modo de vida religiosa, mas com toda uma estrutura que usa a religião para estabelecer e assegurar privilégios de uma classe e sustentar uma visão mesquinha de salvação. Por isso, os que se favorecem desse sistema, pensam em matar Jesus, mas temem o povo” (p. 1298).

Este comentário fica longe da realidade histórica. O que ocorria no tempo de Jesus, era o seguinte: como em todos os santuários (ou mesmo como em todos os lugares onde se aglomera muita gente), no Templo de Jerusalém acorriam nos dias de festa, camelôs e vendedoras ambulantes que armavam suas bancas para vender alimentos, objetos para o culto (vítimas), lembranças ou para fazer o câmbio das moedas estrangeiras. Esses pequenos comerciantes prestavam serviço aos milhares de peregrinos que afluíam ao Templo nas grandes solenidades; mas o acúmulo de gente, com suas necessidades, davam ocasião propícia à ganância e à exploração. Entende-se então que Jesus tenha reagido contra esses abusos; tal reação, porém, não teve, em absoluto, as proporções que a Bíblia Pastoral lhe atribui:

“Acusando e atacando o comércio existente no Templo, Jesus retira as bases sobre as quais toda uma sociedade se apoiava. De fato, era com esse comércio que se sustentava grande parte da economia do país. O gesto de Jesus abala não apenas um sistema de vida religiosa, mas toda uma estrutura que usa da religião para estabelecer e assegurar privilégios de uma classe e para sustentar uma visão mesquinha de salvação. Jesus é apresentado como o rei legítimo, centro de nova aliança: ele… é aclamado pelas crianças como o Messias. Aqueles que são privados de apoio oficial e de poder estão prontos para receber Jesus, enquanto as autoridades o rejeitam” (p. 1267).

Eis alguns espécimens da leitura materialista realizada pelos responsáveis da BP. Não se encontra nesta alguma alusão aos Santos Padres, à Tradição e ao Magistério da Igreja; o que aí se incute, é a perspectiva de uma sociedade estruturada segundo o marxismo e não a imagem do Reino de Deus em demanda de sua consumação escatológica.

“Mc 8,27-33: A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres, e poderosos à custa de fracos. Por isto, essa sociedade vai mater Jesus antes que ele a destrua”.

É este o comentário a uma passagem evangélica que fala da morte e ressurreição de Jesus. Estas são simplesmente silenciadas pelos comentadores, como se não tivessem, antes do mais, importância transcendental.

Além de se ressentir de inspiração ideológica marxista, a Edição Pastoral comete seus erros teológicos e exegéticos, como se verá a seguir.

3. Erros doutrinários

1. No tocante à vida póstuma, os autores das notas parecem professar a ressurreição dos corpos logo após a morte do indivíduo, em desacordo com a doutrina oficial da Igreja e dos textos da própria Bíblia. Com efeito, eis o que se lê à p. 1476:

“Em Corinto alguns pensam que, depois da morte, a alma imortal continua vivendo sozinha… Outros pensam que tudo termina com a morte… Paulo mostra que ambas as opiniões são contrárias ao núcleo da fé cristã”.

Na verdade, a própria S. Escritura (ou o próprio São Paulo) professa a sobrevivência da alma sem o corpo, ficando a ressurreição da carne reservada para o fim dos tempos. Ver, por exemplo:

1Cor 15, 22-24a: “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda (parusia). A seguir, haverá o fim”.

1Ts 4,16s: “Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida, nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor nos ares”.

Estes dois textos situam a ressurreição dos mortos no momento da parusia ou da segunda vinda de Cristo. – Entre a morte do corpo e a ressurreição no fim dos tempos, a alma separada do corpo goza da sua sorte eterna (bem-aventurada, se a pessoa morreu em graça):

2Cor 5,8: “Estamos cheios de confiança, e preferimos deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor”.

Fl 1,23: “Meu desejo é partir e estar com Cristo, pois isto me é muito melhor”.

Lc 23, 43: Disse Jesus ao bom ladrão pouco antes de morrer: “Em verdade eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso”.

A Congregação para a Doutrina da Fé explicitou esta doutrina numa Instrução datada de 17/05/1979, onde se lê:

“(…) 3- A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano” subsista, mesmo sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra “alma”, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para rejeitá-lo e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos…

5- A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela considera como distinta e diferida em relação àquela condição própria do homem imediatamente depois da morte.

6- A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tirasse o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de única; ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos”.

2. Algumas vezes as notas de rodapé da BP, de índole histórica, são derivadas da Bíblia de Jerusalém. Mas nem sempre de modo inteligente. Assim, por exemplo, no comentário de Ex 23, 14-19 a Bíblia Pastoral repete o mesmo erro que já ocorria na Bíblia de Jerusalém em português, afirmando que a festa das Semanas era celebrada durante sete semanas ou cinqüenta dias (p. 96). Ora a Festa das Semanas, chamada Pentecostes em grego, era celebrada cinqüenta dias após o começo da colheita, como explicam Dt 16,9 e Lv 23,16, mas não duravam cinquenta dias; durava um dia apenas!

3. A BP traduz 1Cor 7, 36-38 nos seguintes termos:

“Se alguém, transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem. Ao contrário, se alguém, por firme convicção, sem constrangimento e no plano uso de sua vontade, resolve respeitar a sua noiva, está agindo bem. Portanto, quem se casa com sua noiva faz bem; e quem não se casa, procede melhor ainda”.

Ora o texto grego original fala de virgem (parthénos), e não de noiva (nymphe). A tradução clássica é apresentada pela Bíblia de Jerusalém:

“Se alguém julga agir de modo inconveniente para com a sua virgem, deixando-a passar da flor da idade, portanto deve casá-la, faça o que quiser; não peca. Que se realize o casamento! Mas aquele que, no seu coração, tomou firme propósito, sem coação e no pleno uso da própria vontade, e em seu íntimo decidiu conservar a sua virgem, esse procede bem. Portanto procede bem aquele que casa a sua virgem; e aquele que não a casa, procede melhor ainda”.

Em nota a Bíblia de Jerusalém alude à tradução adotada pela BP como sendo pouco habitual. A BP prefere a nova maneira de traduzir, sem dar informações sobre o seu caráter muito hipotético.

4. Conclusão

É louvável a intenção de tornar o texto bíblico acessível e compreensível ao maior número possível de leitores. Isto, porém, não significa incutir determinada opção ideológica, de mais a mais que a ideologia marxista se apresenta ao mundo de hoje como fracassada e ultrapassada. A Justiça Social é sumamente desejável, sim; ela decorre da própria mensagem bíblica que a Doutrina Social da Igreja, através das encíclicas papais, vem desenvolvendo e aplicando aos nossos tempos. A Igreja não precisa recorrer a sistemas heterogêneos para propor aos homens a autêntica mensagem da salvação.

Notemos a grande responsabilidade que toca a tradutores e editores da Bíblia: a linguagem do texto sagrado penetra e forma a mentalidade do povo que a lê. A tradução de Lutero plasmou a língua alemã. Permita Deus que a sua santa Palavra não sirva de instrumento para levar o povo cristão à deterioração e a desvios da fé!

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quarta-feira, 29 de junho de 2011

UT UNUM SINT!

Comunidade Ecumênica de Taizé?


Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Nº 195, Ano 1976, p. 113

Por Dom Estevão Bettencourt, Osb


Em síntese: O mosteiro protestante de Taizé é obra do Irmão Roger Schutz e seus companheiros. Roger Schutz, movido pelo desejo de propiciar a reconciliação entre os cristãos e, em geral, entre os homens divididos, houve por bem constituir, a partir de 1940, uma comunidade dedicada à oração, ao trabalho e ao acolhimento de visitantes ou peregrinos. A obra encontrou resistência durante os seus vinte primeiros anos, nos ambientes protestantes. Hoje em dia, porém, goza de estima e do apoio tanto dos protestantes como dos católicos; os Papas João XXIII e Paulo VI têm-lhe dado eloqüentes testemunhos de benevolência.

Os monges de Taizé restauraram no Protestantismo a prática dos votos religiosos: celibato de bens materiais e obediência. Dedicam algumas horas do dia à oração (comunitária e particular). Aplicam-se ao trabalho (manual e intelectual) para sobreviver e para auxiliar as pessoas e populações necessitadas: na América Latina, promoveram a operação "Esperança", que se destina a favorecer os mais pobres do continente. A fim de incentivar a sua obra de reconciliar, os irmãos de Taizé têm fundado pequenas Fraternidades fora de Taizé, na Europa e na América (inclusive na cidade de Vitória, ES, Brasil).

Os jovens têm sido fortemente atraídos pela mensagem de reconciliação e otimismo proveniente de Taizé. O afluxo dos mesmos ao mosteiro é vultuoso, principalmente nas férias de verão e de Páscoa. De 30/VIII a 1/IX/74 inauguraram o Concílio dos Jovens, que se protrairá por diversas sessões em várias partes do mundo durante alguns anos. Os temas do Concílio visam a despertar a juventude e, em geral, os homens de hoje para a responsabilidade que a história lhes impõe.

Em suma, Taizé é um sinal de esperança cristã em nossos dias.

Comentário : O movimento ecumênico visa à restauração da unidade entre os cristãos. Essa unidade foi violada por cismas sucessivos:

- em 431 e 451, separaram-se da comunhão da Igreja os nestorianos e monofisitas (que hoje constituem pequenas comunidades esparsas pelo Oriente);

- em 1054, sob o Patriarca Miguel Cerulário de Constantinopla, separaram-se os bizantinos, arrastando consigo vários povos da Europa Oriental. São os cristãs chamados "ortodoxos" (ortodoxos, porque no séc. V não haviam caído nas heresias do nestorianismo e do monofisismo);
- em 1517, Lutero deu início ao movimento cismático protestante, que se continuou no Calvinismo, no Anglicanismo (ao menos na "Low Church") e nas denominações protestantes posteriores.

Frente a essas comunidades cristãs não católicas, existe a Igreja Católica, que se deriva, sem interrupção até hoje, de Jesus Cristo e dos Apóstolos.

Ora nos últimos tempos têm-se verificado tentativas numerosas de aproximação dos cristãos entre si. Uma das mais belas e alvissareiras é o mosteiro de Taizé, fundado por monges protestantes, mas aberto a todos os cristãos, na expectativa de um reencontro de todos na hora e nas circunstâncias que a Providência Divina houver por bem assinalar.

O mosteiro de Taizé, desde a sua fundação, há trinta e seis anos, vem chamando mais e mais a atenção do mundo cristão e não cristão por causa do ideal que representa. Eis por que nos propomos, nas páginas que se seguem, apresentar Taizé e as grande linhas de pensamento que inspiram a sua comunidade.

1. Origens e desenvolvimento

O fundador do mosteiro de Taizé é o Irmão Roger Schutz. Nasceu aos 12 de maio de 1915 na Provença (França) como filho de família protestante; seu pai, Charles Schutz, de origem suíça, era pastor. Desde cedo foi atraído pela Igreja Católica, como refere o próprio Roger Schutz:
"Quando eu tinha cinco anos, entramos numa Igreja católica. Tudo aí mergulhava na penumbra. A luz que iluminava a Virgem e a reserva eucarística, deixou em mim uma imagem até hoje inalterada" ("Ta fête soit sans fin", 30/05/69).
Quando o menino tinha treze anos, seus pais pensaram em mandá-lo estudar numa cidade vizinha, onde ficaria hospedado em casa de família. Poderiam escolher entre uma família protestante e outra católica. Esta era pobre, pois constava de uma viúva com numerosos filhos. Os pais de Roger eram propensos a ajudar essa viúva, pagando-lhe o preço da pensão do menino, mas hesitavam por causa da fé católica da viúva. Finalmente optaram pelo alvitre mais generoso, confiando a esta o seu filho protestante. Em conseqüência, Roger Schutz, em seus anos de formação, compartilhou o estilo de vida de uma família protestante (a sua) como também o de uma família católica.

Durante os seus anos de estudos na Universidade de Lausanne, o jovem protestante leu obras clássicas do Catolicismo, que nele foram aumentando as tendências ao ecumenismo. Estas desabrocharam na idéia de fundar uma comunidade religiosa que se dedicasse à causa da aproximação dos cristãos.

Em 1940, durante a segunda guerra mundial, Roger Schutz procurava um lugar onde estabeleceria a sua fundação. Na Borgonha, perto de Cluny (território francês não ocupado pelos alemães), o jovem idealista encontrou o vilarejo de Taizé, onde lhe apontaram uma casa favorável aos seus propósitos. Foi lá que Roger resolveu fixar-se. Começou então a sua obra, acolhendo os refugiados de guerra que o procurassem. Esta situação se prolongou por dois anos, quando em 1942 Roger Schutz teve que deixar Taizé, pois o território fora ocupado pelos alemães; retirou-se então para Genebra (Suíça), onde conheceu os seus primeiros discípulos: Max Thurian, Pierre Souvairam, Daniel de Montmollin. Em 1944 Roger, com seus três companheiros, voltou a Taizé, onde a comunidade começou a se dedicar a meninos vítimas da guerra e a prisioneiros alemães.

Na festa de Páscoa de 1949, os irmãos de Taizé, em número de sete, emitiram os votos que os consagravam para o resto da vida ao serviço do Senhor. Este passo se revestia de enorme significado. Com efeito, Martinho Lutero, que deu início à Reforma protestante em 1517, rompeu os seus votos religiosos e os condenou. Conseqüentemente, o protestantismo nunca conhecera vida monástica nem comunidades constituídas por votos religiosos. Os teólogos protestantes desaconselhavam aos irmãos de Taizé a introdução desse tipo de vida na Reforma, alegando que os votos eram contrários à liberdade sugerida pelo Espírito Santo. Não obstante, Roger Schutz e seus companheiros julgaram que deviam firmar seu gênero de vida mediante uma profissão religiosa, não somente para dar certa estabilidade à obra iniciada, mas também, e principalmente, para serem coerentes com o próprio Evangelho. Eis como o Irmão Roger Schutz expõe o seu pensamento:
"Muitas vezes nos fizeram a nós (Irmãos de Taizé_ esta pergunta: "Vocês adotaram esses três pontos (os votos de castidade, pobreza e obediência) para copiar o cenobitismo tradicional ?" Temos de responder logo que tentamos sinceramente não nos deixar impressionar pela experiência do passado. Quisemos apagar tudo para experimentar tudo de novo. E, apesar disto, encontramo-nos um dia diante da evidência: não podíamos sustentar a nossa vocação sem nos comprometer totalmente na comunhão de bens, na aceitação de uma autoridade, no celibato" ("Naissance de communautés dans l'Église de la Reforme", em "Verbum Caro" 1955, p. 20). ¹
Em 1951, foi pela primeira vez editada a "Regra de Taizé", que estipulava as estruturas e os objetivos do novo mosteiro. Em 1952, os irmãos de Cluny começaram a fazer fundações em territórios de missão. Em novembro de 1958, Roger Schutz foi recebido em audiência pelo Papa João XXIII, e em fevereiro de 1962 pelo Patriarca Atenágoras. Em 1964, a comunidade já contava 65 irmãos.

Os primeiros vinte anos do mosteiro de Taizé foram difíceis, pois os monges, tidos como inovadores do Protestantismo, não eram compreendidos pelos seus irmãos na Reforma. Todavia a figura e a obra do Papa João XXIII, que mais de uma vez recebeu e encorajou o Ir. Roger Schutz, contribuíram notavelmente para que a nova comunidade superasse os primeiros obstáculos de sua existência e se implantasse definitivamente. Durante o Concílio do Vaticano II (1962-1965) os Irmãos Roger Schutz e Max Thurian foram convidados a comparecer às sessões respectivas como observadores.

Nos dias 5 e 6 de agosto de 1962, foi inaugurada em Taizé a Igreja da Reconciliação, símbolo das aspirações ecumênicas que alimentam a comunidade monástica local. A construção desse templo deve-se a jovens alemães, que a quiseram empreender em sinal de expiação e reconciliação. À entrada da Igreja, lêem-se em francês, alemão e inglês os seguintes dizeres:

"Vós que entrais aqui, reconciliai-vos:
o pai com seu filho,
o marido com sua esposa,
o que crê com aquele que não crê,
o cristão com seu irmão separado".

É em vista de oferecer a todos os cristãos, e mesmo a todos os homens, uma ocasião de se aproximarem e unirem entre si que o mosteiro de Taizé existe primordialmente. É esta nota que o caracteriza no mundo inteiro.

Além disto, Taizé tem a vocação de servir aos homens também no plano material; os irmãos são úteis aos habitantes da região em que vivem, mantendo cooperativas agrícolas e pecuárias, dedicando-se à medicina e à saúde da população, trabalhando em olaria, pintura e confecção de vitrais. Em 1952 alguns monges foram enviados em missão entre os operários na região de Monceau-les-Mines; todavia esta experiência não durou muito. Dilataram seus horizontes até a América Latina: em 1962, organizaram uma coleta para atender às vítimas de um terremoto no Chile; em janeiro de 1963, o Ir. Roger Schutz lançou a "Operação Esperança" destinada a auxiliar as populações necessitadas do nosso continente; em conseqüência, no Brasil foi, entre outras coisas, distribuída gratuitamente uma edição do Novo Testamento.

Nos últimos dez anos, Taizé assumiu ainda outra faceta: tornou-se um ponto de convergência dos jovens. Estes vão ao mosteiro atraídos pela mensagem de esperança que daí decorre; muitos são protestantes, outros católicos e ainda outros são indefinidos e curiosos, à procura de uma resposta para as suas indagações. De 30 de agosto a 1º de setembro de 1974, teve início o chamado "Concílio de Jovens", do qual falaremos adiante.

Importa-nos agora realçar as notas principais da espiritualidade de Taizé, que, de resto, vêm a ser, em grande parte, as da vida monástica ou religiosa sempre vivida na Igreja Católica.


2. Taizé : as grande linhas de pensamento

2.1. O ideal e suas etapas

O ideal dos irmãos de Taizé é o da vida monástica, ou seja, o da consagração total ao Senhor; é a procura comunitária do Único e Definitivo em meio às coisas transitórias deste mundo. Para tanto, os monges se nutrem da espiritualidade bíblica e procuram viver segundo a Regra monástica, que estipula três grande atitudes interiores e exteriores: pobreza, castidade e obediência. Está claro que a fé dos monges de Taizé é a protestante; os membros da comunidade se recrutam entre as diversas denominações do Protestantismo: luteranismo, presbiterianismo, anglicanismo, congregacionanalismo...

Por conseguinte, o candidato que deseje incorporar-se ao mosteiro de Taizé, submete-se, antes do mais, a um período de três anos de formação (equivalente ao noviciado das comunidades católicas). Terminado esse prazo, o novo irmão, caso seja aceito pela comunidade, é admitido aos votos monásticos; estes são emitidos geralmente no decorrer da liturgia da manhã de Páscoa, depois da renovação das promessas do Batismo. O candidato prostra-se então por terra, enquanto a comunidade canta a Sl 125. A seguir, o Prior dirige-lhe uma exortação; o candidato profere os seus votos; troca o ósculo da paz com os irmãos; estes, por fim, lhe impõem as mãos em sinal de comunhão e partilha dos mesmos bens espirituais. Eis o texto dos compromissos que o monge de Taizé assume ao professar:

"- Queres, por amor a Cristo, consagrar-te a Ele com todo o teu ser...?

- Queres dedicar-te ao serviço de Deus, na nossa comunidade, em comunhão com os teus irmãos...?

- Renunciando a toda propriedade, queres viver com os teus irmãos não só na comunidade de bens materiais, mas também na dos bens espirituais, esforçando-te por abrir o teu coração? ...

- A fim de estares mais disponível a servir aos teus irmãos e a fim de te dares sem partilha ao amor de Cristo, queres permanecer no celibato?...

- Para que sejamos um só coração e uma só alma e para que a nossa unidade de serviço se realize plenamente, queres adotar as decisões tomadas em comunidade e expressas pelo Prior...?

- Vendo sempre o Cristo em teus irmãos, queres vigiar sobre eles nos dias bons e maus, na abundância e na pobreza, no sofrimento e na alegria...?"

Como se vê, os três votos de pobreza, castidade e obediência são enquadrados na moldura do amor a Cristo e do serviço a Deus e aos homens.

O Prior Irmão Roger Schutz explica o significado de cada um desses compromissos:
"Pela castidade desejamos ser homens de um só amor, de um só amor de Cristo,... homens de tal modo voltados para a esperança de Deus que desejam ter os braços abertos a todos e a tudo, ao universal, à catolicidade, ao ecumenismo... Aquele que se compromete na castidade do celibato, só a pode sustentar se vive na espera de Deus. Ser homem de um só amor é ser o homem que dá a sua vida, e por sua vida dá sinais do único amor de Deus que o anima".
Sobre a obediência diz o Prior:
"Em Taizé chegamos à conclusão de que a autoridade tem por função suscitar a unidade, reunir aqueles que sempre tendem a se dispersar ou mesmo, por vezes, a se opor.
 ...O que se impôs à nossa evidência dia após dia, é que a tarefa pastoral de quem recebeu função de autoridade... é a de tender a suscitar a unanimidade, uma anima, uma só alma na comunidade".
A respeito da pobreza, Ir. Roger Schutz faz as seguintes ponderações:

"Pobreza! Eis uma palavra que esfola os lábios. Redigindo a Regra de Taizé, não ousei utilizá-la; preferi falar de compromisso com a comunhão de bens; esta pode levar à pobreza.
Hoje, se ouso falar de vocação para a pobreza, faço-o porque a solidariedade com o mundo dos pobres se impôs a nós. E, apesar disto, fica sempre um mal-estar, pois no nosso Ocidente teremos sempre o pão sobre a mesa. O espírito de pobreza está nas antípodas da necessidade de segurança profundamente inscrita no nosso ser. Aquele que vive em espírito de pobreza, tem sua segurança em Deus; seu hoje é o de Deus. A pobreza em espírito fica sendo a atitude em que se realiza a nossa dependência em relação a Deus; no espírito de pobreza, sabemos que os dons pessoais - inteligência, sensibilidade, - ficam sendo muito relativos em relação ao dom por excelência (caridade)". 
As tendências da instituição monástica em Taizé voltam-se fortemente para a vida contemplativa ou a oração. O mosteiro dispõe de pequenas ermidas, nas quais os monges se podem retirar ou por alguns dias ou para passar a noite em oração. A prece e a solidão são atitudes cristãs que alimentam a grande expectativa do Definitivo, o qual porá fim ao provisório, ou ainda ... a expectativa do Senhor como Juiz e Consumador da história.

Passemos a uma segunda nota de espiritualidade de Taizé.

2.2. Ecumenismo e Reconciliação

O mosteiro de Taizé foi fundado sob o signo da procura da unidade entre os cristãos separados e, mais amplamente,... entre todos os homens divididos por rixas ou por preconceitos de raça, classe, religião... Essa tendência à unidade em Taizé foi notavelmente reforçada sob o pontificado do Papa João XXIII, que, da parte católica, exprimiu, com eloqüência singular, o apelo ao ecumenismo. Conservando-se protestantes, os irmãos de Taizé aspiram à unidade dos cristãos entre si "como e quando o Senhor a quiser".

Em vista de tão nobre fim, dedicam-se principalmente à oração. O Ofício litúrgico no mosteiro é celebrado três vezes por dia no coro: de manhã, ao meio-dia e à tarde; em certas datas, celebra-se também o Ofício de Vigílias, que é noturno. A Liturgia das Horas consta de textos bíblicos (salmos, leituras do Antigo e do Novo Testamento), cantos e preces, cujos dizeres fazem ressoar a espiritualidade cristã comum a católicos, protestantes e ortodoxos. Dessa oração participam numerosos visitantes e peregrinos, que não são curiosos, mas cristãos que desejam pedir em prol da unidade cristã...

A todos aqueles que vêm ter aqui, desejamos dizer e redizer incessantemente o que está inscrito no frontispício da Igreja: que o pai se reconcilie com o filho, o marido com a esposa, o crente com aquele que não pode crer, o irmão de uma confissão com o irmão separado.

De certo modo, a oração da nossa comunidade, em meio a esses peregrinos, consiste em dizer com eles: "Olha-nos, Senhor; vê o que somos hoje: divididos, separados pela história, incapazes de realizar a unidade". E eles que, na verdade, homens e mulheres vêm rezar aqui, pedindo a reconciliação de uma esposa com seu esposo, de um irmão com o seu irmão. E todas estas intenções de oração estão inscritas preto sobre branco e nos são confiadas. Levamo-las em nossa própria oração, certos de que o ecumenismo é a reconciliação. O ecumenismo começa sempre por essa reconciliação do homem com Deus e, depois, do homem com o homem, na família, profissão, na sociedade. É somente a partir dessas formas de reconciliação mais próximas que se pode caminhar em demanda da grande reconciliação universal de todos nós na Igreja una".

Como dito atrás, as aspirações ecumênicas dos monges de Taizé não foram devidamente entendidas nos seus primeiros vinte anos de existência, principalmente por parte de denominações protestantes. Atualmente, porém, o mosteiro é ponto de convergência e objeto de profunda estima para numerosas comunidades eclesiais protestantes, bispos luteranos e pastores de outras confissões cristãs dos países escandinavos, germânicos, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Verificou-se evidente mudança de mentalidade, que é certamente um dos frutos obtidos pela oração e o esforço dos monges de Taizé. Quanto aos fiéis católicos, costumam olhar com simpatia o movimento de Taizé, ao qual os Sumos Pontífices João XXIII e Paulo VI têm dado vivo apoio: é entrando em diálogo e procurando a aproximação que os cristãos derrubarão as barreiras humanas que os separam. A maneira como a unidade dos discípulos de Cristo se dará, não é objeto de discussão em Taizé, pois isto foge à alçada do programa dos monges e de seus visitantes; católicos e protestantes talvez encarem de maneiras diferentes essa questão. Como quer que seja, é somente o Espírito de Deus, com a sua graça, que pode restaurar a unidade dos irmãos separados, iluminando as inteligências e movendo os corações. E o Espírito há de ser invocado pela oração assídua: "Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!" (Lc 11, 13).

A espiritualidade de Taizé, baseada, antes do mais, sobre a oração, se alimenta e exprime também pelo trabalho.

2.3. Trabalho

A comunidade de Taizé dedica-se intensamente ao trabalho, não só porque este é um fator de ascese e disciplina na vida dos monges, mas também porque, sendo pobres, os irmãos necessitam de exercer um ganha-pão. O dinheiro que eles assim adquirem não beneficia apenas a comunidade, mas também os semelhantes necessitados que os irmãos possam atingir.

As atividades dos monges são variadas.

Há os que se entregam à confecção de obras de arte: pintura, vitrais, cerâmica (certos artefatos de cerâmica de Taizé, por exemplo, têm sido levados a exposições internacionais, inclusive no Japão). Outros se dedicam à arte gráfica, atendendo ao setor de edições do mosteiro. Também o trabalho intelectual - estudo, redação e publicação de livros - interessa aos irmãos: alguns se aprofundam na teologia, principalmente na teologia ecumênica; outros pesquisam no setor da sociologia, considerando com olhar cristão as questões e conclusões da mesma.

A hospedagem de visitantes e peregrinos solicita outrossim o trabalho dos irmãos. Já que este setor é, por vezes, absorvente, bom número de amigos da comunidade colabora com os monges na recepção dos que batem à porta do mosteiro; estes são convidados à oração comunitária e, se possível, à participação da mesa fraterna. Ainda para receber os peregrinos em Taizé, há geralmente sacerdotes católicos e ortodoxos.

Dada a irradiação que o mosteiro vem tendo, foi necessário que os irmãos construíssem novas e novas dependências em torno do núcleo central. Não raro a mão-de-obra tem sido gratuita; alguns irmãos tomam parte da mesma.

A finalidade ecumênica do mosteiro faz também que os monges se desloquem freqüentemente, não raro em pequenos grupos de dois ou três e por um tempo mais ou menos longo Vão a países da Europa (Holanda, Alemanha, Escandinávia e Inglaterra), como também os Estados Unidos e à América Latina. Fundam pequenas Fraternidades em tais regiões, no intuito de propiciar reconciliação e renovação de vida entre os homens. No Brasil, os irmãos de Taize constituíram uma pequena Fraternidade junto ao mosteiro beneditino de Olinda (PE), mantendo boas relações com os monges de São bento e a população local. Passaram posteriormente para Vitória (ES), onde continuam até hoje, sem intenções proselitistas.

Não poderíamos terminar estas apreciações sem referir algo de mais explícito a respeito do movimento de jovens em Taizé.

3. Taizé e os jovens

3.1. O afluxo

A mensagem de reconciliação e otimismo proclamada pelos monges de Taizé tem encontrado eco particularmente significativo entre os jovens das diversas partes do mundo. Desde 1965 registra-se um afluxo crescente da juventude ao mosteiro de Taizé, principalmente por ocasião das férias de verão e de Páscoa. Em 1974, 19.000 jovens se encontravam em Taizé por ocasião da Páscoa.

Os observadores têm procurado indicar as causas precisas de tal afluxo: por que vão os jovens a Taizé com tanto interesse ?

Há quem responda que eles assim procedem porque gostam de viajar... e viajar como aventureiros. Poder-se-iam lembrar as aglomerações de jovens em Woodstock (ilha de Wight). Tal tendência a viajar exprimiria o desejo que os jovens têm, de fugir do mundo dos adultos ou da sociedade de consumo; seria, em outros termos, uma expressão de contestação. Ora inegavelmente Taizé é uma espécie de desafio ou contestação à sociedade de consumo. Lá não existe luxo; os visitantes não raro dormem sobre palha e comem precariamente.

Pode-se crer que essa mentalidade dos jovens explique, até certo ponto, o afluxo dos mesmos a Taizé. É o que se deduz, por exemplo, das palavras de Annick, peregrino em Taizé:

"A primeira vez que alguém vai a Taizé, creio que seja por curiosidade. Amigos, vizinhos voltam de lá entusiasmados, animados por nova força de vida e, não obstante, procuram não divulgar o que lá acontece".

Parece, pois, que a curiosidade e o desejo de estar na moda (de receber a cruz e a pedra azul de Taizé) explicam a primeira visita de muita gente ao mosteiro. Mas o fato de lá voltarem repetidamente já requer outra explicação. Esta parece consistir em algumas notas características de Taizé, que os jovens vão descobrindo aos poucos:

- a partilha. O ambiente de Taizé é estritamente comunitário, mesmo para os visitantes. Cada qual destes é incorporado a um grupo, onde há intercâmbio de idéias e valores humanos e cristãos; ora a descoberta desta realidade atrai;

- a oração. O ambiente de Taizé é fortemente marcado pelo espírito e a prática da oração. Os Ofícios litúrgicos convidam regularmente a esta; além disto, a calma e a beleza do lugar, o silêncio de certos recantos têm o mesmo efeito. É o que atesta Virgínia, visitante à qual muitos companheiros fariam eco: "Aqui encontrei de novo o sentido da oração e da contemplação".

Um jovem belga, movido primeiramente pela curiosidade, assim se exprimiu: "Havia sete anos que eu não entrava numa Igreja. Que silêncio ! Fiquei surpreso por não ver cadeiras. Quase tive vontade de puxar um cigarro... e rezar";

- engajamento ou compromisso. Em Taizé os jovens se conscientizam da missão que lhes cabe nesta fase da história e dispõem-se a agir.

Em conclusão, pode-se dizer que é a descoberta destes valores que, em última análise, prende os jovens a Taizé, de modo a explicar a crescente procura do mosteiro por parte da juventude.

3.2. O Concílio dos jovens

Vendo o interesse da mocidade por Taizé, o Prior do mosteiro, Ir. Roger Schutz, organizou em setembro de 1966 o primeiro Encontro Internacional dos mesmos. Nos anos seguintes, outros Encontros se realizaram, tendo sempre um tema próprio: "Viver", "Crer", "Um desafio: esperar". Diante do êxito obtido e por influência de Margarida Moyano, Secretária-Geral da Juventude Católica Latino-Americana, o Prior Ir. Roger Schutz resolveu lançar a idéia de um "Concílio de Jovens". Na Páscoa de 1970, uma equipe internacional de jovens anunciou a "Alegre Notícia" ... Todavia, antes da concretização da idéia, foi necessário proceder a uma série de preparativos: em diversas partes do mundo criaram-se grupos ou células destinados a refletir sobre a maneira de levar a termo a idéia com o máximo de êxito.

Finalmente na Páscoa de 1972 foi anunciada a data de realização do Concílio: agosto-setembro de 1974.

Com efeito, de 30 de agosto a 1º de setembro de 1974 uma multidão de 30.000 a 35.000 jovens, provenientes de 120 países, participou do grande Encontro. Este, porém, seria (e foi) apenas a primeira sessão do Concílio, que se protrairá por diversas sessões no decorrer de alguns anos, tomando sedes sucessivas nos vários continentes do globo. Os congressistas acamparam em tendas no vale próximo à colina de Taizé; nesse vale e na colina foram constituídos cinco centros de distribuição de refeições; vendiam-se também, em diversos lugares, alimentos, bebidas e utilidades a baixo preço. Os participantes do Congresso pagaram a sua diária, dentro dos moldes do seu possível; em geral, o Congresso e os congressistas procuraram autofinanciar-se, renunciando a doações. Muitos jovens fizeram horas "extra" de trabalho a fim de poder ganhar a sua subsistência no Congresso.

Os debates do certame levaram fortemente em considerações a situação angustiada de numerosos grupos e populações do globo; os representantes do terceiro Mundo relataram as condições de vida dos respectivos países, despertando assim os demais congressistas para o desafio da época aos cristãos e aos homens de boa vontade. O S. Padre Paulo VI, o Patriarca Dimitrios de Constantinopla (Istambul) e o Pastor Philip Potter, do Conselho Mundial das Igrejas, enviaram sua mensagem aos jovens reunidos, comunicando-lhes a orientação da fé neste momento, em que as posições extremistas exercem forte sedução.

Em conclusão, não se pode deixar de registrar a ação do Espírito Santo na comunidade de Taizé. Esta é realmente um sinal de reconciliação tanto para os cristãos como para todos os homens que desejem viver mais freqüentemente esta fase da história.


¹ Aliás, não é este o único testemunho de irmãos protestantes contemporâneos em favor dos votos religiosos. Sim; uma diaconisa protestante na África declarou:
"Quando uma jovem toma consciência desse convite de Deus a uma consagração total, deve fazer frente a três exigências muito precisas: a castidade, a pobreza e a obediência" (citada por Esnault, "Luther et lê monachisme acutel" p. 11, n. 1).
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Através do Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, o Papa Bento XVI relembrou os cinco anos (em 2010) do assassinato do Irmão suíço Roger Schultz, fundador da Comunidade de Taizé, na França, enviando uma mensagem à entidade ecumênica.

“Agora que entrou na alegria eterna, o querido Irmão Roger continua a falar-nos. Que o seu testemunho de um ecumenismo de santidade nos inspire no nosso caminho para a unidade e que a vossa Comunidade continue a viver e a fazer brilhar o seu carisma, especialmente junto das gerações mais jovens” - escreve o Pontífice na mensagem publicada no site da Comunidade.

“Incansável testemunha do Evangelho de paz e reconciliação, Irmão Roger foi um pioneiro no difícil caminho em direção à unidade entre os discípulos de Cristo” – prossegue Bento XVI, manifestando sua “proximidade espiritual e a sua união nas orações com a comunidade e com todos aqueles que participam das celebrações que recordam o irmão Roger”.

“Há 70 anos, ele deu início a uma comunidade que ainda vê chegar milhares de jovens provenientes do mundo todo, que buscam dar um sentido às suas próprias vidas, acolhendo-os na oração e permitindo que eles tenham uma relação pessoal com Deus”.

Roger Schütz-Marsauche foi morto em 16 de agosto de 2005, durante a oração noturna pública, por uma mulher de 35 anos, de origem romena, aparentemente desequilibrada, que se aproximou dele com uma faca. Ele tinha 90 anos. Cerca de 12.000 pessoas participaram do enterro do Irmão no dia 23 de agosto.

O Irmão Alois, sucessor do irmão Roger, recebeu nestes dias mensagens do Secretário Geral do Conselho Ecumênico das Igrejas, Olav Fykse-Tveit, do Secretário Geral da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (CMIR), Setri Nyomi, do Secretário Geral da Federação Luterana Mundial, Ishmael Noko, do Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, do Patriarca Kirill, de Moscou, do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla.

Os cinco anos da morte do irmão Roger serão lembrados no próximo dia 14 de agosto, quando a Comunidade celebra também o septuagenário de fundação.

Cidade do Vaticano, 11 ago (RV)

Fonte:Radio Vaticana

Site da Comunidade de Taizé

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O que é a Igreja Brasileira, ou Igreja Católica Brasileira?

por D. Estevão Bettencourt


A Igreja Católica Apostólica Brasileira ou “Igrejas Católicas Apostólicas Brasileiras” (ICAB), têm lançado confusão no público, pois pretendem guardar a aparência de Igreja Católica e facilitam a praxe religiosa dos seus seguidores. – Daí a conveniência de uma análise precisa do fenômeno.


1. Origem da ICAB

A “Igreja Católica Apostólica Brasileira” (ICAB) tem como fundador D. Carlos Duarte Costa. Este nasceu aos 21 de julho de 1888 no Rio de Janeiro e recebeu a ordenação sacerdotal a 1º de abril de 1911. Aos 4 de julho de 1924 foi nomeado bispo de Botucatu (SP). Pouco feliz foi o governo do novo prelado, que se viu envolvido em questões de mística desorientada (devoções pouco condizentes com a reta fé); também enfrentou problemas de administração financeira e de embates políticos. Em conseqüência foi afastado de sua diocese e nomeado bispo titular de Maura (na Mauritânia, África Ocidental); fixou então residência no Rio de Janeiro. Em breve, porém, D. Carlos viu-se a braços com novas lutas: em 1942 o Brasil entrou em guerra contra o nazi-fascismo; nessa ocasião o bispo apelou publicamente para o Presidente da República a fim de que interviesse na Igreja e expulsasse bispos e sacerdotes “fascistas, nazistas e falangistas”; acusou a Ação Católica de espionagem em favor do totalitarismo da direita; prefaciou elogiosamente o livro “O Poder Soviético” de Hewlet Johnson e atacou por escrito as Forças Armadas do Brasil. Em conseqüência, foi preso como comunista e enviado a uma cidade de Minas Gerais, onde permaneceu na qualidade de hóspede.

Diante dos rumores que se propagavam em torno da pessoa de D. Carlos, as autoridades eclesiásticas procuraram apaziguá-lo. Como isto não desse resultado, D. Carlos em 1944 foi suspenso de ordens, isto é, perdeu a autorização para exercer as funções do sagrado ministério. Esta medida de nada serviu; por isto D. Carlos foi excomungado aos 6 de julho de 1945; neste mesmo dia resolveu fundar a sua Igreja, dita “Igreja Católica Apostólica Brasileira”. Em vista desta atitude, o Santo Ofício declarou D. Carlos excomungado vitandus (= a ser evitado) aos 3 de julho de 1946.

Um dos primeiros atos públicos da ICAB foi a fundação do “Partido Socialista Cristão”, sob a orientação de D. Carlos. Este chegou a apresentar um candidato à presidência da República, o qual, porém, se desentendeu em breve, ficando fracassado o novo Partido.

D. Carlos promoveu direta ou indiretamente a ordenação de numerosos “bispos” e “presbíteros”, cuja formação doutrinária e cultural era precária. O infeliz prelado veio a falecer aos 26 de março de 1961; terminou a vida de maneira desvairada, obcecado por paixões, que se exprimiam em injúrias através do seu jornal “LUTA”. Todavia um Concílio Nacional da ICAB, aos 6 de julho de 1970, chegou a atribuir-lhe o título de “Santo”: “São Carlos Duarte”!

2. Doutrina e atuação da ICAB

Em matéria de doutrina, a ICAB procura reproduzir a da Igreja Católica, excluindo (como se compreende) o primado de Pedro… A sua mensagem teológica é muito diluída, visão que os seus orientadores pouco estudam. Vários destes são homens que tentaram chegar ao sacerdócio na Igreja Católica, mas, por um motivo ou outro, não o conseguiram; então passaram-se para a ICAB, onde o estudo e o acesso às ordens sagradas lhes foram extremamente facilitados. Infelizmente nota-se nos membros da hierarquia e nos fiéis da ICAB certo oportunismo, ou seja, a procura de atender a interesses pessoais: ordenação “sacerdotal” ou “episcopal”, lucros financeiros mediante celebração do culto, “casamento” facilitado em favor de pessoas já casadas, “batizados” sem preparação dos pais e padrinhos… Dir-se-ia que a ICAB procura adeptos a todo e qualquer preço; lê-se, por exemplo, na Lista Telefônica de assinantes classificados do Rio de Janeiro:

“ICAB, Igreja Católica Apostólica Brasileira, Paróquia São Jorge: casamento com ou sem efeito civil de pessoas solteiras, desquitadas e divorciadas. Crismas. Consagrações. Também em residências ou Clubes Realengo, Piraquara”.

Dado que a ICAB se adapta às diversas oportunidades de crescer, há atualmente muitos ramos da mesma independentes uns dos outros, o que sugere a denominação “Igrejas Católicas Apostólicas Brasileiras” em vez de “Igreja Brasileira”.

O que dá certo êxito a essa corrente religiosa, são os dois seguintes fatores:

1) A reprodução dos ritos e a conservação dos símbolos (inclusive da linguagem) da Igreja Católica. Muitas pessoas não conseguem distinguir entre a Igreja Católica e a Igreja Brasileira. Parece haver a intenção de guardar em tudo as aparências da Igreja Católica entre os responsáveis das Igrejas Brasileiras.

2) O procedimento facilitário e oportunista dos mentores da ICAB. Esta não apresenta normas definidas de Direito Eclesiástico, de modo que os seus ministros são capazes de “legitimar” religiosamente qualquer situação ilegal daqueles que os procuram. Este comportamento facilitário é, naturalmente, fonte de dinheiro, pois a ICAB sabe prevalecer-se da generosidade dos fiéis. A exploração se torna ainda mais fácil em virtude da ignorãncia religiosa de muitos cidadãos brasileiros.

A falta de estrutura doutrinária e disciplinar das Igrejas Brasileiras lhes tira a coesão desejável e faz que não tenham quase significado no cenário público do Brasil; apesar disto, conseguem penetrar dentro da população desprevenida da nossa Pátria, favorecendo o ecleticismo e solapando a vitalidade religiosa de muitos católicos.

A propósito pergunta-se:

3. Qual a validade dos ritos da ICAB?
"Missa" de celebração de 65 anos da fundação da ICAB

Respondemos em três etapas:

3.1. A eficácia dos Sacramentos

a) Um sacramento é um rito mediante o qual Cristo comunica as graças da Redenção ex opere operato, ou seja, desde que o ministro respectivo aplique a matéria (água, pão, vinho, óleo) e a forma devida (as palavras que indicam o efeito da matéria).

b) Os sacramentos não são eficazes ou não conferem a graça em virtude da santidade do homem (sacerdote, bispo) que os administra mas sim por ação do próprio Cristo, que se serve do homem como instrumento de sua obra redentora. Todavia, para a validade do sacramento, requer-se que:

- O ministro tenha sido validamente ordenado padre ou bispo;

- Tenha, ao administrar o sacramento, a intenção de fazer o que Cristo queria que fosse feito, ou a intenção de se identificar com as intenções de Cristo, Sumo Sacerdote.

3.2. Que diz a ICAB?

Os adeptos da ICAB afirmam que

- Seus ministros foram validamente ordenados padres e bispos, pois receberam a sucessão apostólica das mãos de D. Carlos Duarte Costa, que foi verdadeiro bispo da Igreja Católica, sagrado por D. Sebastião Leme. Embora Dom Carlos se tenha separado da Igreja Católica, conservou o caráter episcopal perenemente impresso em sua alma

- D. Carlos e os bispos que ele ordenou sempre fizeram questão de transmitir as ordens sacras segundo o ritual exato adotado pela Igreja Católica (usando mesmo o latim em algumas ocasiões);

- As missas, os batizados e outros ritos ocorrentes nas cerimônias de culto da ICAB obedecem estritamente à essência do Ritual sempre vigente na Igreja Católica.

Por conseguinte, concluem os ministros da ICAB, a Igreja Brasileira possui autênticos bispos e presbíteros, e ministra validamente os sacramentos.

3.3. E que diz a Igreja Católica?

a) Embora os ministros da Igreja Brasileira apliquem exatamente a matéria e a forma de cada sacramento, falta-lhes algo de essencial para que seus sacramentos sejam válidos, isto é, a intenção de fazer o que Cristo quis fosse feito. Na verdade, os ministros da ICAB, mediante os seus ritos, intencionam criar e desenvolver uma “Igreja” separada da única Igreja fundada por Cristo; tal “Igreja” nova já não professa as verdades do Credo Apostólico, mas se entrega ao ecleticismo religioso: protestantes, espíritas, maçons e comunistas podem ser igualmente membros da ICAB. Sim; a revista “A Patena”, revista da “diocese da Baixada Fluminense” da ICAB, em seu nº 3 de 1971, 4ª capa, diz que a Igreja Brasileira “religiosamente é católica, porque aceita em seu grêmio cristãos de qualquer mentalidade, sem repelir os que sejam ou se digam protestantes, espíritas, maçons, católicos-romanos etc.”. Isto significa que a Igreja Brasileira vem a ser uma sociedade filantrópica, humanitária, mas já não tem a mensagem religiosa definida que o Cristo confiou ao mundo e que o Símbolo de fé apostólico professa.
Donde se vê que a ação dos ministros da ICAB carece daquela intenção que é essencial para a validade dos sacramentos: a intenção de fazer o que Cristo faz mediante os sacramentos.

b) Já que a ICAB se ramificou, dando origem a múltiplas “Igrejas”, Ordens e Irmandades independentes, já não se pode saber até que ponto nas denominações “católico-brasileiras” se conserva a fidelidade aos ritos sacramentais; com o tempo as arbitrariedades e os desvios facilmente se introduzem nas pequenas comunidades. Em conseqüência, a Igreja Católica não reconhece as ordenações conferidas pela ICAB, muito menos reconhece a autenticidade das Missas e dos sacramentos celebrados pela ICAB.

4. Observações Finais

A Igreja fundada por Cristo (cf. Mt 16,16-19) é Católica (aberta a todos os homens), Apostólica (baseada sobre a ação missionária dos doze Apóstolos) e Romana, isto é, governada visivelmente por Pedro e seus sucessores, que têm sede em Roma (como poderiam ter em Jerusalém, Antioquia, Alexandria… se a Providência Divina tivesse encaminhado Pedro e os acontecimentos iniciais da história da Igreja em rumo diverso do que realmente ocorreu).

O título de “Romana” portanto não significa que a Igreja de Cristo esteja presa aos interesses políticos da cidade de Roma ou da nação italiana; nem implica subordinação dos fiéis católicos do Brasil a uma potência estrangeira, mas apenas indica que essa Santa Igreja tem seu chefe visível, instituido por Cristo, na cidade de Roma.

Os fatos atrás apontados evidenciam a urgência de sólida catequese para o povo de Deus no Brasil.