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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Páscoa


Hoje em dia, praticamente não se vive a festa da Páscoa. Temos uma data puramente comercial sem maior significado religioso. Consideram que o importante é ovo de chocolate, o coelho da Páscoa e, o pior, a Semana Santa, para muitos, não passa de um fim de semana prolongado. O número de cristãos e "católicos" que nesta época vão para as praias e viagens de turismo ou festas mundanas, é simplesmente desconcertante! Diante disso, devemos recuperar, em nossas comunidades o sentido da festa da Páscoa, isto é, a Ressurreição de Jesus, Sua vitória e a manifestação do Seu poder sobre o pecado. Ao mesmo tempo, é a data em que celebramos a vida nova que recebemos no batismo, a nossa passagem da morte para a vida, da escravidão para a vida e da cegueira para a justiça.

Semana Santa começa com a celebração do Domingo de Ramos e termina com o Tríduo Pascal: Quinta e Sexta e Sábado Santo.
Conhecida como “Semana Maior” é para nós católicos a semana em que nos preparamos intensamente para celebrar o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor

Sendo a mais importante festa dos cristãos, centro dos mistérios da vida de Nosso Senhor, todos os católicos devem realizar este mínimo de amor por Jesus Sacramentado. Quantas pessoas receberam a graça da conversão devido à confissão para a comunhão pascal!

 
A Páscoa do Senhor não é um acontecimento passado, do qual apenas se recorda, mas, acontece no hoje da liturgia. Fazer memória dos acontecimentos salvíficos possui uma densidade espiritual para os cristãos, pois eles se realizam novamente. Assim, quando se vive a Semana Santa, vive-se todo o drama, todo o conflito de vontades que Jesus e todos os envolvidos viveram.

A Semana Santa é o ápice da vida cristã, por isso, deve ser vivida em toda sua plenitude e intensidade. Ela começa na agonia do Getsêmani, quando a vontade humana e a divina de Jesus se chocam. Quando Deus se esconde e tem que ser procurado. E prossegue quando Ele é abandonado por todos, despedido de todas as prerrogativas, justo ele, que tudo tinha e nada ganhou por assumir a condição humana. O verdadeiro Jó.

Cada ser humano encontra-se hoje no tempo da decisão, no tempo de corresponder a Deus, dizendo “sim” para o amor que ele oferece. Como o povo eleito, cada homem, cada mulher encontra-se naqueles quarenta anos de deserto, libertados das garras de Satanás, mas ainda fora da Terra Prometida, no desafio de Meribá e Massá. Acontece que a raça humana é miserável, incapaz de elevar-se à Deus. E, por isso, em seu infinito amor, Deus manda seu Filho, que se faz homem, verdadeiramente homem, para que um coração humano possa amá-lo como Ele deseja ser amado.

Jesus morreu para que cada ser humano pudesse ser resgatado do pecado. É o que diz o Catecismo da Igreja Católica:
Morreu por nossos pecados segundo as escrituras. Este projeto divino de salvação mediante a morte do “Servo, o Justo” havia sido anunciado antecipadamente na Escritura como um mistério de redenção universal, isto é, de resgate que liberta os homens da escravidão do pecado. (601)
O sacrifício de Jesus concluído na cruz deve ser para cada cristão o motivo para empregar ainda mais empenho na busca pela santidade. E este é momento ideal para a conversão, para o encontro pessoal com Deus, para se deixar moldar por Ele, morrendo para os próprios pecados, deixando-se encher pelo vinho novo.

Morrer para os próprios pecados é condição sem a qual não é possível viver plenamente a Páscoa. Mergulhar nos mistérios pascais, desejando abandonar-se neles, querendo vivê-los em conformidade com Cristo e com a Igreja é viver em comunhão espiritual e sacramental o tempo forte de conversão que é a Semana Santa.
“Não é tarde, nem tudo está perdido… Ainda que assim te pareça. Ainda que o repitam mil vozes agoureiras. Ainda que te assediem olhares trocistas e incrédulos… Chegaste num bom momento para carregar a Cruz: a Redenção está-se fazendo – agora! –, e Jesus necessita de muitos Cireneus” São Josemaria Escrivá, Via Crucis

Que todos possamos viver a Semana Santa com profundidade, em comunhão espiritual e sacramental, desejando verdadeiramente a conversão, buscando a Deus escondido, para que Ele possa, enfim, revelar-se e fazer-nos novos homens e mulheres. Lembremo-nos ainda de que só pode cantar o “Aleluia” quem viveu o Calvário!


Feliz e Santa Páscoa!!!
 

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FONTES:

segunda-feira, 19 de março de 2012

Carregue a sua Cruz!

"A vontade de Deus nunca irá levá-lo 
aonde a Sua Graça não irá acompanhá-lo."

















E aí, a sua cruz está pesada??? Eu sei... E Ele também sabe! Mas nada nesta vida é por acaso!
Quando Deus permite dificuldades tremendas em nossas vidas, Ele está apenas abrindo as nossas mãos para receber um bem maior e melhor.

O problema é que sempre queremos nos livrar da "cruz", fazer do nosso jeito, não somos obedientes e nem queremos entender os planos de Deus. Mas sempre há um "por quê" e um "para quê".

Deus nunca nos manda algo que não possamos suportar, e que não seja para o nosso bem, porque Ele nos ama!

Se abreviarmos estes caminhos, certamente teremos consequências negativas e o sofrimento será maior.
Então quando tudo parece não ter saída, se jogue no abismo insondável da Misericórdia de Deus! Confie! Faça a vontade d'Ele... e se não entende, pergunte que Ele dará as respostas no momento certo.

Caminhe buscando primeiro as coisas do Alto, e o mais Ele fará!
Espera n'Ele e seja forte!!!

Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus! (Rm 8,28)




Pax et Bonum!
In corde Jesu et Mariae.

domingo, 18 de março de 2012

IV Domingo da Quaresma: Laetare Jerusalem!

Lætatus sum in his quæ dicta sunt mihi:
in domum Domini ibimus.



Lætare Jerusalem:
et conventum facite
omnes qui diligitis eam:
gaudete cum lætitia,
qui in tristitia fuistis:
ut exsultetis, et satiemini
abuberibus consolationis vestræ.

"Hoje a liturgia nos convida a nos alegrar porque se aproxima a Páscoa, o dia da vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte... Mas onde se encontra a fonte da alegria cristã mais que na Eucaristia, que Cristo nos deixou como Alimento espiritual, enquanto somos peregrinos nesta terra? A Eucaristia alimenta nos fiéis de toda época essa alegria profunda, que faz tudo com o amor e com a paz, e que tem origem na comunhão com Deus e com os irmãos". (Papa Bento XVI)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Formas de penitência e suas razões

Formas de penitência e suas razões 

O corpo humano pode ser comparado a uma criança mimada, aquela que deseja ter todas as suas vontades satisfeitas e, mesmo que isso ocorra, ela ainda é irritadiça, preguiçosa e indolente. Assim é o ser humano, assim é o corpo humano. Quanto mais come, mais letárgico fica; quanto mais dorme, mais sono tem; e assim por diante. Trata-se da primeira consequência do pecado original, da mãe de todas as doenças: a filáucia, que pode ser definida como o amor de si contra si e cujo lema é "foge da dor, busca o prazer".

Esse lema está muito presente na sociedade moderna, que incentiva a busca desenfreada pelo prazer, pela satisfação de todos os desejos, representado pela "liberdade". Enquanto isso, o ser humano se torna cada vez mais vazio e menos resistente à dor. Não suporta ser contrariado e se desestrutura quando perde algo ou alguém. Pudera, não foi ensinado a isso, não exercitou a moderação, não praticou a ascese e a disciplina.

O tempo da Quaresma está chegando. A Igreja ensina e estimula o católico a praticar o jejum, a oração e a esmola. Essas três formas de penitência são um remédio para o combate das doenças espirituais, sendo que o jejum auxilia no combate à gula, a oração no combate ao orgulho e à soberba, e a esmola no combate à avareza. São exercícios que, se feitos com seriedade, têm a capacidade de arrancar o cristão católico das garras do relativismo que domina o mundo atualmente.

http://www.youtube.com/watch?v=vrjIjXHojp0

S.32 SERMÃO DA MONTANHA (Catecismo da Igreja Católica)

S.32.1 Doutrina e preceitos no Sermão da Montanha

§2153 Jesus expôs o segundo mandamento no Sermão da Montanha: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor'. Eu, porém, vos digo: não jureis em hipótese nenhuma... Seja o vosso 'sim', sim, e o vosso 'não', não. O que passa disso vem do Maligno" (Mt 5,33~34.37). Jesus ensina que todo juramento implica uma referência a Deus e que a presença de Deus e de sua verdade deve ser honrada em toda palavra. A discrição em recorrer a Deus na linguagem caminha de mãos dadas com a atenção respeitosa à sua presença, testemunhada ou desprezada, em cada uma de nossas afirmações.

§2262 No Sermão da Montanha, o Senhor recorda o preceito: "Não matarás" (Mt 5,21), e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. Mais ainda, Cristo diz a seu discípulo que ofereça a outra face e ame seus inimigos. Ele mesmo não se defendeu e disse a Pedro que deixasse a espada na bainha.

§2336 Jesus veio restaurar a criação na pureza de sua origem. No Sermão da Montanha, Ele interpreta de maneira rigorosa o plano de Deus: "Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração" (Mt 5,27-28). O homem não deve separar o que Deus uniu.

A Tradição da Igreja entendeu o sexto mandamento como englobando o conjunto da sexualidade humana.

§2608 No Sermão da Montanha, Jesus insiste na conversão do coração: a reconciliação com o irmão antes de apresentar uma oferenda no altar, o amor aos inimigos e a oração pelos perseguidores, a oração ao Pai "em segredo" (Mt 6,6), a não-multiplicação das palavras, o perdão do fundo do coração na oração, a pureza do coração e a busca do Reino. Essa conversão é inteiramente orientada para o Pai; é filial.

§2830 "O pão nosso." O Pai, que nos dá a vida, não pode deixar de nos dar o alimento necessário à vida, todos os bens "úteis", materiais e espirituais. No Sermão da Montanha, Jesus insiste nesta confiança filial que coopera com a Providência de nosso Pai. Não nos exorta a nenhuma passividade, mas quer libertar-nos de toda inquietação e de toda preocupação. É esse o abandono filial dos filhos de Deus:

Aos que procuram o Reino e a justiça de Deus, ele promete dar tudo por acréscimo. Com efeito, tudo pertence a Deus: a quem possui Deus, nada lhe falta, se ele próprio não falta a Deus.

S.32.2 Lei divina no Sermão da Montanha

§577 Jesus fez uma advertência solene no começo do Sermão da Montanha, em que apresentou a Lei dada por Deus no Sinai por ocasião da Primeira Aliança à luz da graça da Nova Aliança:

Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado. Aquele, portanto, que violar um só destes menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo ser chamado o menor no Reino dos Céus; aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos Céus (Mt 5,17-19).

§1965 A Nova Lei ou Lei evangélica

A Nova Lei ou Lei evangélica é a perfeição, na terra, da lei divina, natural e revelada. Ela é a obra do Cristo e se exprime particularmente no Sermão da Montanha. E também obra do Espírito Santo e, por ele, vem a ser a lei interior da caridade: "Concluirei com a casa de Israel uma nova aliança. (...) Colocarei minhas leis em sua mente e as inscreverei em seu coração; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (Hb 8,8.10).

§1966 A Nova Lei é a graça do Espirito Santo dada aos fiéis pela fé em Cristo. É operante pela caridade, serve-se do Sermão do Senhor para nos ensinar o que é preciso fazer e dos sacramentos para nos comunicar a graça de fazê-lo.

Aquele que quiser meditar com piedade e perspicácia o Sermão que Nosso Senhor pronunciou no monte, tal como o lemos no Evangelho de São Mateus, aí encontrará, sem sombra de dúvida, a carta magna da vida cristã. (...) Este Sermão contém todos os preceitos apropriados para guiar a vida cristã.

§1968 A Lei evangélica dá pleno cumprimento aos mandamentos da Lei. O Sermão do Senhor, longe de abolir ou desvalorizar as prescrições morais da Lei Antiga, dela haure as virtualidades ocultas, faz surgir novas exigências e revela sua verdade divina e humana. Não lhe acrescenta novos preceitos exteriores, mas vai até o ponto de reformar a raiz dos atos, o coração, onde o homem faz a opção entre o puro e o impuro, onde se formam a fé, a esperança e a caridade e, com elas, as outras virtudes. O Evangelho, deste modo, leva a lei à plenitude, imitando a perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela oração pelos perseguidores, seguindo o modelo da divina generosidade.

S.32.3 Sermão da Montanha guia espiritual e texto de meditação

§1454 Convém preparar a recepção deste sacramento fazendo um exame de consciência à luz da Palavra de Deus. Os textos mais adaptados esse fim devem ser procurados na catequese moral dos evangelhos e das cartas apostólicas: Sermão da Montanha, ensinamentos apostólicos.

§1724 O Decálogo, o Sermão da Montanha e a catequese apostólica nos descrevem os caminhos que levam ao Reino dos Céus. Neles nos engajamos, passo a passo, pelas ações de todos os dias, sustentados pela graça do Espírito Santo. Fecundados pela Palavra de Cristo, daremos, aos poucos, frutos na Igreja para a glória de Deus.

§1966 A Nova Lei é a graça do Espirito Santo dada aos fiéis pela fé em Cristo. É operante pela caridade, serve-se do Sermão do Senhor para nos ensinar o que é preciso fazer e dos sacramentos para nos comunicar a graça de fazê-lo.

Aquele que quiser meditar com piedade e perspicácia o Sermão que Nosso Senhor pronunciou no monte, tal como o lemos no Evangelho de São Mateus, aí encontrará, sem sombra de dúvida, a carta magna da vida cristã. (...) Este Sermão contém todos os preceitos apropriados para guiar a vida cristã.


Fontes:
Padre Paulo Ricardo
Catecismo-az


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

QUARESMA DE 2012



MENSAGEM DE SUA SANTIDADE 
PAPA BENTO XVI 
PARA A QUARESMA DE 2012


«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos
ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24)



Irmãos e irmãs!

A Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da » (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de Novembro de 2011

BENEDICTUS PP. XVI

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pensamentos para Quaresma

Por Dom Eugenio de Araujo Cardeal Sales, Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro


Iniciamos com a quarta-feira de cinzas mais um ciclo litúrgico, a Quaresma. Ela nos oferece ainda excelente oportunidade para tratar de um assunto cada vez mais ofensivo à mentalidade e sensibilidade reinantes, inclusive de cristãos.

Respira-se uma atmosfera na qual o direito à satisfação dos sentidos é afirmado como algo supremo e indiscutível, acima de qualquer limitação. Dentro dessa visão errônea, tudo o que se lhe opõe é proscrito. No entanto, há um "direito ao prazer", dentro de uma conceituação correta. Não como um ídolo ao qual tudo se submete, mas como meio de preservar uma finalidade de vida individual e coletiva.

Vejamos esse assunto sob o ângulo natural, independentemente da crença religiosa.

Toda criatura busca a perfeição, uma harmonia a ser construída. Essa tarefa, ao ser posta de lado por algum motivo, gera tensão e desordem. Assim, o instinto foi dado ao homem como força protetora para salvar a si mesmo e fazer sobreviver a coletividade. No primeiro caso, ele é espicaçado pela vontade de reter e usufruir bens materiais. Então, pela falta de autocontrole e desprezo dos valores que devem alicerçar a conduta, surgem as mais variadas deformações. Quem quer possuir dificilmente se dá conta que pesa sobre o que ele acumulou uma grave “hipoteca social”. O egoísmo ofusca-o. Ele não vê as necessidades dos irmãos. Naturalmente reage à penitência que exige uma justa distribuição. A consciência de que nada nos pertence de maneira absoluta mostra outra realidade: os que vivem em penúria, passam privações, os doentes, os sem-emprego, os acabrunhados pelo luto. Nos hospitais e nas prisões, em muitos lares, em locais de trabalho há pessoas sofredoras. Na rua, irmãos sem amigos nem compreensão, sem saber como enfrentar o dia de amanhã. Somente pelo esforço contra as tendências deformadoras alcançaremos a harmonia interior e social.

O mesmo ocorre com o instinto sexual. Ele é destinado a perpetuar a vida na terra. Como a espécie é mais importante que o indivíduo, é extraordinariamente forte. Mas, sob o império do prazer, termina por divinizá-lo. Em consequência, sacrifica-se a existência do outro ser, no aborto, no adultério e no estupro.

Mesmo para quem não participa de nossa Fé, a penitência quaresmal é de grande valia. Combate o amor próprio que desintegra, prejudica e degrada o homem. Ao resistir à força cega dos impulsos, ele redescobre uma liberdade que o eleva como pessoa humana.

A necessidade de ascese torna-se mais clara quando é vista na perspectiva da doutrina cristã.

Recordo que, com data de 17 de fevereiro de 1966, o Papa Paulo VI publicou a Constituição Apostólica “Penitemini”, que assim começa: “Fazei penitência e crede no Evangelho” (Mc 1,15) (...) Entre os graves e urgentes problemas que se apresentam à nossa solicitude pastoral não nos parece ser o último o de lembrarmos aos nossos filhos – e a todos os homens religiosos de nosso tempo – o significado e a importância do preceito divino da penitência”.

Um dos maiores desvios que ofendem gravemente a face do Senhor, na Igreja de nossos dias, é a fuga às exigências da Fé. Deturpa a mensagem de Cristo aquele que busca acomodar-se à mentalidade do mundo. Assim cria uma outra instituição, da qual exclui tudo o que representa renúncia, restrição; substitui a dureza da Cruz salvadora pelas facilidades proporcionadas por falsos ensinamentos. Faz-se mister clamar a plenos pulmões que os deveres do catolicismo não foram abolidos: a missa dominical, a confissão auricular, os mandamentos da lei de Deus e assim por diante. Esta situação dúbia, proveniente de pregadores e professores acobertados sob o título de “católicos”, vem danificando a vida religiosa.

O Papa João Paulo II, em outra Carta Apostólica, a “Savifici Doloris”, “sobre o sentido cristão do sofrimento”, nos ensinava: “As Testemunhas da Cruz e da Ressurreição de Cristo transmitiram à Igreja e à Humanidade um Evangelho específico do sofrimento” (nº25). Repetidas vezes, o Mestre nos adverte que as tribulações, em decorrência da fidelidade a Ele, diante da necessidade de coibir a concupiscência, ao mesmo tempo “contêm em si o chamamento especial à coragem, à fortaleza, apoiado pela eloquência da Ressurreição” (Idem).

O Apóstolo Paulo nos admoesta: “Todos aqueles que querem viver piedosamente em Jesus Cristo, serão perseguidos” (2Tm 3,12).

O tempo da Quaresma nos alerta para o valor da ascese, “o primado dos valores religiosos e sobrenaturais da penitência” (“Penitemini”, nº23). O convite à conversão, próprio desta época do ano litúrgico, deve ser acompanhado “pelo exercício voluntário de ações exteriores de penitência (...), afora as renúncias impostas pelo peso da vida cotidiana” (Idem, nº27). Este documento “indica, na tríade tradicional – oração, jejum e esmola – os modos fundamentais para obedecer ao preceito divino da penitência” (Ibidem, nº30).

É nesse sentido que O Papa Bento XVI, em sua mensagem para a Quaresma deste ano nos exorta a “contemplar o Mistério da Cruz... para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela ação do Espírito Santo...; orientar com decisão nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo,... abrindo-nos à caridade de Cristo”.

O cristão, durante todo o ano, especialmente na Quaresma, descobre a verdadeira dimensão dos valores temporais e o faz pela penitência.




Fonte: Salvem a Liturgia!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quaresma

por Dom Hilário





O Carnaval se foi. Com ele se foram as folias e tudo o mais que costuma acompanhá-lo de bom e de ruim. Agora, aos olhos do cristão abre-se a porta da Quaresma, ou seja, da conversão. A quarta-feira de Cinzas é o símbolo do retorno aos braços do Pai e do esforço para crescer no seguimento de Jesus até o Calvário, onde está plantada a cruz da morte e o sepulcro vazio da ressurreição. É a Páscoa que desponta no horizonte. Vamos com alegria e decisão ao seu encontro!

A Quaresma e a Páscoa que a encerra evocam o batismo. O acontecimento da morte e da ressurreição de Jesus tornou-se também meu por meio do batismo, conforme ensina São Paulo: “Ignorais que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6,3). E ainda: “Sepultados com Cristo no batismo, foi também com Ele que ressuscitastes” (Colossenses 2,12).

Conclusão: a Quaresma me propõe retornar à fonte batismal onde eu fui lavado do pecado e onde a vida divina invadiu todo o meu ser; ali me tornei templo da Trindade e fui inserido na comunidade de Jesus, a Igreja. A Quaresma também me convida a um exame de consciência para conferir se estou ou não caminhando pelo caminho do Evangelho e do seguimento de Jesus. Em resumo, a pergunta é esta: realmente sou “cristão” (de Cristo), sou discípulo do Mestre morto e ressuscitado?

Na Quaresma fala-se sempre em conversão, isto é em “voltar” para Deus e em “voltar-se” para Deus. “Voltar” para Deus é para aqueles que “se voltaram” contra Deus pelo pecado. “Voltar-se” para Deus é para todos. Minha peregrinação sobre a terra deve ter uma bússola, uma estrela que me orienta a buscar constantemente a face de Deus. Não no sentido de buscar experiências espirituais extraordinárias, mas no sentido de nunca permitir que Deus desapareça do horizonte da minha vida de cada dia. Se isso acontecer, seria como se o sol desaparecesse: tudo morreria de frio. Por isso, a minha primeira preocupação quaresmal deve ser a de dar a Deus o primeiro lugar que Ele merece em minha vida.

Deus se fez próximo a mim em Jesus, seu Filho feito meu Irmão. Jesus é o Caminho, a Verdade, a Vida, a Luz, a Ressurreição; Jesus é Deus! Assim, para que Deus seja o “sol” da minha vida, basta seguir Jesus. E você sabe que o caminho percorrido por Jesus neste mundo (e proposto a mim também) não foi um caminho enfeitado de rosas; houve muitos espinhos que o arranharam, e todo mundo sabe como a história terminou: na cruz! Por isso, meu exame de consciência na Quaresma precisa passar por Jesus, pelo seu Evangelho, pelo mesmo caminho que Ele percorreu. Por onde andei até agora? Que caminhos percorri longe dEle? É sempre tempo de “voltar” (converte-se) a Jesus. Nesta Quaresma Ele me espera...

O próprio Jesus me propõe um caminho concreto a percorrer durante a Quaresma: jejum, esmola e oração. O jejum, mais do que abster-se de alimentos (o que também é útil para o corpo e para a alma, quando feito com moderação), é um convite para “fazer jejuar” o demônio e o pecado, isto é, para a renúncia a tudo aquilo que pode me afastar de Jesus. A esmola, mais do que tirar do bolso algum trocado (o que também é conveniente em certas circunstâncias), é ser solidário com as pessoas, particularmente as mais necessitadas; é perdoar as ofensas, reconciliar-se com quem está indisposto com a gente, participar da vida da comunidade eclesial, dispor-se ao serviço dos outros (aqui também se insere a Campanha da Fraternidade). A oração, mais do que multiplicar orações (claro que rezar é indispensável), consiste em ter o coração constantemente “voltado” para Jesus, ouvir sua Palavra, buscar o perdão dos pecados pelo sacramento da Penitência, alimentar-se da Eucaristia.

Para não ir longe demais e não complicar a vida espiritual, durante toda a Quaresma, em preparação para a Páscoa, tenha na sua mente e no seu coração, estas quatro realidades: batismo, jejum, esmola e oração. Caminhe por esse caminho, que é o “caminho de Jesus”. Como Ele, você passará pela cruz (renúncia), como Ele abrirá seu coração ao amor (esmola), como Ele cumprira´em tudo a vontade do Pai (oração). Fazendo isso, sua vida divina (batismo) retomará vigor e você se tornará mais filho/a de Deus, mais discípulo/a de Jesus, mais templo do Espírito Santo, mais irmão/a de todos na Igreja e no mundo. Então, sim, você poderá dizer que, como Jesus, está de fato preparado para celebrar a Páscoa.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarta-feira de Cinzas


Queridos irmãos e irmãs,

Hoje está prevista, na celebração da Eucaristia, o rito da imposição das cinzas. Trata-se de um sinal que nos recorda a nossa condição de criaturas e nos convida à penitência e à conversão, para nos configurarmos cada vez mais com Cristo. A Igreja sabe que, à nossa fragilidade humana, custa fazer silêncio e parar diante de Deus, tomando consciência da nossa condição de criaturas que dependem d’Ele e necessitam do seu perdão. Por isso, na Quaresma, a Igreja convida a uma oração mais fiel e intensa e à meditação mais demorada da palavra de Deus. As leituras, que ouviremos na Missa dos próximos domingos e às quais vos convido a prestar especial atenção, propõem-nos o itinerário batismal que, na tradição antiga, percorriam os catecúmenos – aqueles que se preparavam para o batismo. Meditando-as, queremos reavivar em nós o dom, as exigências e os compromissos deste sacramento, que está na base da nossa vida cristã, a vida de ressuscitados com Cristo.


PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL


Sala Paulo VI
Quarta-feira, 9 de Março de 2011